sábado, 10 de fevereiro de 2018

- Aurora em Macaúbas, vista do Cruzeiro da Liberdade -

Acrílico sobre tela - 40 x 50 cm - 2018
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O nascer do Sol é sempre um espetáculo à parte e sua fartura de cores e luzes é sempre um bom lembrete para nós de nossa pequeneza diante deste universo tão vasto, não importa de qual lugar do mundo você esteja observando. Talvez exatamente por este caráter universal da experiência, que a princípio pode parecer um tanto banal, que eu escolhi pintar esta cena. O ponto de observação de onde esta magnífica vista foi retratada (o “cruzeiro da liberdade”) é o ponto mais alto da cidade onde geralmente os mais aventureiros escolhem para assistir o nascer do Sol em Macaúbas e de onde também é possível ter uma bela visão da cidade, inclusive. 

O processo artístico

Provavelmente eu já comentei por aqui anteriormente sobre o aumento de minha produção nos últimos meses, que está gerando muitos desenhos em diferentes tipos de materiais e que acabam me servindo também como um laboratório onde eu posso experimentar como funciona algumas ideias que eu tenho em mente e que podem se tornar trabalhos mais elaborados posteriormente. Quando decidi que iria fazer esta cena específica, tinha pensado nela inicialmente como um desenho mais simples, talvez produzido com lápis dermatográfico, mas depois de um pouco mais de tempo avaliando a foto que eu havia tirado desta cena, achei que seria melhor já partir logo para uma pintura em tela, até mesmo por se tratar de uma pintura rápida, não tão trabalhosa (logicamente, observando pelos meus padrões de produção) e visualmente bastante atrativa, principalmente para aqueles que já conhecem o ponto de onde a aurora foi retratada.

Uma coisa que sempre é bem interessante de se tratar é a questão do efeito que as cores causam no espectador ao serem colocadas lado a lado. Contra um fundo claro (por exemplo, o branco da tela), qualquer cor um pouco mais escura vai ter destaque, mesmo que se trate de uma cor clara, algo que muda drasticamente a partir do momento em que pintamos partes escuras próximas, criando a ilusão de que esta cor clara se tornou ainda mais clara. Este efeito também ocorre inversamente, quando sobre um fundo preto eu aplico uma cor mais clara. Já havia comentado sobre este interessante fenômeno no post “Casal de Pombos”

Especificamente nesta tela, isto pode ser observado na parte da iluminação pública da cidade, que em grande parte é de cor alaranjada graças as lâmpadas de vapor de sódio (se estou bem certo). Nesta parte, eu não poderia simplesmente pintá-las só com a cor laranja, afinal, não causaria a sensação correta do brilho. É justamente aí que entrou a parte mais trabalhosa, que foi fazer um pontilhismo carregado em alaranjado, para depois de concluído, eu basicamente refazer, preenchendo um por um estes pontos com um ponto central branco, mas sem cobrir totalmente... é como se a parte laranja fosse a coroa de um sol. 

Comparativo - influência mútua das
cores próximas
Desta forma, eu crio uma sensação de iluminação, mas sem perder a sensação global de alaranjado que a cidade emite quando vista de cima, naturalmente carregando mais no branco em pontos que remetem às áreas onde a iluminação da cidade já é mais moderna, como na via de entrada e no centro da cidade, em alguns pontos combinando com um azul mais claro para diferenciar esta “cor da iluminação”. Este processo de influência das cores próximas pode ser melhor compreendido nesta pequena imagem ao lado que mostra quanta diferença faz um ponto branco no interior de uma cor sólida, criando esta ilusão de iluminação.

História

A cidade de Macaúbas, que sempre teve uma tradição religiosa bastante forte, era originalmente cercada por cruzeiros, que nada mais são do que grandes cruzes católicas em pontos limite da sede do município, como uma forma supersticiosa de proteger o local dos maus espíritos. Dentre estas cruzes que rondam a cidade, o cruzeiro da liberdade se destaca também por sua história bastante curiosa, da qual tomei conhecimento através das longas conversas que eu mantinha com o saudoso professor Ático Vilas Boas da Mota (que tinha uma memória privilegiada e se lembrava muito bem dos relatos daqueles que vivenciaram o fato). 

Missa Campal celebrando a abolição da escravatura,
no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1888.
No Brasil, em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel promulgou a lei Áurea que abolia a escravidão no Brasil para a alegria dos negros africanos e de seus descendentes que viviam sob esta tenebrosa condição no país. Porém, a notícia da lei Áurea ainda demorou um pouco para alcançar os mais longínquos pontos no interior do país e até a novidade da lei chegar a todos, levou algum tempo, afinal, naturalmente estamos falando de um período no qual os meios de comunicação (e locomoção) eram bastante limitados.

Esboço de como deveria ser o trecho
inicial da rua Dr Manoel Vitorino
Macaúbas nunca foi uma cidade muito rica e possuir escravos no século XIX era um claro sinal de que havia boas condições econômicas, portanto, haviam poucos escravos na cidade… mas havia. Num determinado momento em 1888, adentra a cidade um mensageiro gritando a notícia da abolição pelas ruas da cidade, acompanhado em festa por um cortejo de pessoas que comemoravam a boa nova. Segundo contava o prof. Ático, uma negra que trabalhava numa casa da esquina inicial da rua Dr. Manoel Vitorino (conhecida localmente como a casa dos Amaral), assim que ouviu a notícia ficou tão eufórica que pulou a janela da frente da casa direto para a rua, na intenção de seguir o cortejo e por muito pouco, quase quebra a perna (considerando que na época as calçadas eram muito mais altas do que a própria rua). Mas na alegria da novidade, saiu mancando feliz acompanhando a festa que estava sendo feita. 

Não demorou muito para que os ex-escravos tivessem a ideia de criar um marco para celebrar aquela data especial e assim, escolheram fixar um grande cruzeiro de madeira no ponto mais alto da cidade, que com o passar dos anos foi sendo restaurado e hoje, no local, se encontra uma grande cruz de metal, naturalmente por se tratar de um material mais resistente às ações do tempo.

A Obra

Numa primeira olhada descuidada, a pintura parece ser bem menos elaborada do que é, mas na verdade tem muito planejamento em sua produção. Naturalmente, não fui ao extremo de detalhar as ruas (algo que até seria possível, caso o tamanho da tela fosse maior), mas numa impressão geral o cenário é bem reconhecível. Os povoados e cidades próximas aparecem distantes no horizonte, denunciados pela luminosidade, ainda que um pouco escondidos, distantes, em meio as montanhas que cercam a região. 

Outro detalhe que tive atenção foi em fazer no céu a estrela d’alva (para os íntimos em astronomia, também conhecida como planeta Vênus), e que aparece com destaque no céu neste horário e nesta época do ano. Por se tratar de uma pintura rápida, fruto de apenas uma tarde de trabalho, acho que o resultado alcançou o que era planejado, ainda que seja necessário observar melhor como o público reagirá a este trabalho.


(Fonte)
Imagem da Missa Campal de 1888: Wikipedia



Licença Creative Commons
"Aurora em Macaúbas, vista do Cruzeiro da Liberdade" de Eduardo Cambuí Junior está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://www.arteporparte.com/p/contato.html.

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