sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

- Rua Vermelha, n° 53 -

Óleo sobre tela - 50x70 cm - 2011
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Para começar 2012 com o pé direito aqui no Arte por Parte (depois das esperadas férias), vamos falar hoje de uma pintura que foi concluída no final do ano passado. Há um tempo atrás resolvi pintar a casa do meu avô paterno em tela, já publicada por aqui (Rua Castro Alves, 1980). Foi uma boa pintura, ainda mais por retratar uma construção que já foi toda modificada, assim como também aconteceu com várias casas daquela rua que hoje, nem de perto se parece como era na época. A pintura deste post tem como tema a casa do meu avô materno, novamente importante por retratar um imóvel que também já foi descaracterizado, assim como aconteceu com muitas casas nesta mesma rua, também.


Quando se trata da arquitetura urbana em Macaúbas, infelizmente o valor do patrimônio histórico não é levado em conta na hora de reformar (na verdade, poucas vezes é lembrado). Talvez isto aconteça porque a cidade fica um pouco fora da rota do turismo na Chapada Diamantina (onde muitas das cidades que vivem do turismo tem a preocupação com a preservação do patrimônio histórico). Quando um imóvel antigo é vendido por aqui, o destino dele fatalmente será a demolição (mesmo que apenas da fachada) para dar lugar a algo "moderno", seguindo as tendências das casas que são construídas nos arredores e ignorando completamente toda a história que aquela construção contaria. Mais triste ainda é o momento quando as novas construções são erguidas no lugar das antigas. A originalidade geralmente passa bem longe... são cópias de cópias, quadradas, minimalistas, salvo raras exceções. Muitas vezes, nem mesmo as condições climáticas são levadas em conta. Não sei se isto se deve a mão de obra nem sempre qualificada ou se trata de profissionais que não procuram rever seus conceitos, acorrentados ao comodismo de repertir mais do mesmo. Espero que esta realidade um dia mude!

Voltando ao tema principal, esta pintura, como geralmente costumo fazer nestes temas, usa muito da perspectiva como um atrativo. Outro ponto que foquei um pouco mais foi a textura, como nos sinais do tempo nas casas, como em algumas falhas no reboco das fachadas, na sujeira na soleira das janelas, na desigualdade no alinhamento das telhas, as sombras do telhado, enfim, são pequenos detalhes que compõe e preenchem a cena. Assim como aconteceu com a pintura da Rua Castro Alves, a realização da pintura ficou um tempo deixada de lado, esperando por uma motivação específica. São coisas que acontecem conosco que nem sempre são fáceis de explicar.

Vista parcial da rua Dr Manoel Vitorino, vulgo "rua da garganta"
Uma curiosidade que envolve este tema é o nome da rua em questão. A rua Vermelha na verdade se chama Rua Martiniano de Almeida. Acontece que em Macaúbas, muitas das ruas antigas são conhecidas pelo seu apelido, que acabou se oficializando na boca do povo durante anos. É o caso desta rua, talvez nomeada assim por conta da terra que era encontrada no local, há décadas atrás. Devido a falta de sensibilidade dos políticos locais em oficializar os nomes das ruas com os seus devidos apelidos, optaram por colocar nomes de pessoas (pra variar, muitas vezes são nomes de políticos antigos). Só para ter uma ideia, em Macaúbas tem ruas como "rua do areião" (rua Barão do Rio Branco), "rua da feira" (rua Rui Barbosa), "rua da garganta" (rua Dr Manoel Vitorino), "rua direita" (rua Dr Vital Soares), entre outras.
"Homem com barba"(1630) de Rembrandt, descoberta sob outra pintura do mestre
De uns tempos pra cá, tenho repensado muito o meu estilo de pintura e com isto, resolvi que algumas pinturas antigas (da minha fase inicial) não cabiam mais no meu ateliê por estarem muito distantes do que faço hoje. A consequência: tenho pintado por cima delas. Na história da pintura, alguns artistas também faziam isto sem remorso, como o caso de Rembrandt. Estas pinturas que ficaram ocultas sob outras só estão sendo descobertas recentemente, graças à técnicas muito modernas, como o raio-X ou scanning. Esta pintura foi feita em cima de uma tela que fiz sobre o atentado de 11 de setembro de 2001... naquela época, achei que seria interessante fazer uma pintura sobre o fatídico dia, mas não retratando a cena como uma pintura fotográfica, mas misturando um pouco a queda das torres gêmeas com alguns simbolismos. O resultado final ficou abaixo do esperado, pois estes simbolismos ficaram muito sutis e com o tempo, ficaram sem sentido.

A pintura mostra as duas torres depois de atingidas, em meio a dois "blocos" de fumaça na parte inferior. O simbolismo entra justamente aí: uma camada de fumaça em carmim, como se fosse uma listra da bandeira americana desbotada e outra em ocre, como num tom enferrujado das faixas brancas, que simbolizariam o forte abalo que aquele acontecimento causaria nas estruturas dos Estados Unidos dali pra frente. Pra mim estava claro que o ataque de 11/9 traria fortes efeitos na sociedade americana por vários anos, um pensamento que eu acho que foi um tanto profético, já que depois disso o país entrou em duas guerras mal explicadas (e onerosas), sem contar a crise econômica que houve, que mesmo que não tenha sido diretamente causada pelo fato, de uma certa forma foi uma reação desencadeada pelo 11/9. Mas, como eu disse, o simbolismo da tela era muito subjetivo. Se fosse pintado hoje, seria feito completamente diferente.

No momento de fazer esta nova pintura, decidi que faria um céu um pouco mais rico, com uma gama maior de cores, principalmente nas nuvens. Como as cores estão bem diluídas e se misturam, nem todos conseguem perceber as diferentes cores que compõem o cenário. Como nas minhas pinturas eu tento deixar a pincelada invisível (algo que recentemente estou começando a reconsiderar), o trabalho acaba ficando um pouco mais difícil e lento, principalmente nas paredes das casas desta imagem, onde as outras cores entram através da técnica do sfumato (técnica de sombreamento bem sutil, que dá um efeito esfumaçado na cor).


Licença Creative Commons
"Rua Vermelha, nº 53" de Eduardo Cambuí Junior é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Vedada a criação de obras derivativas 3.0 Unported.

3 comentários:

  1. Edu, ainda bem que Macaúbas tem um filho que procura reconstruir e preservar sua história através dos tempos, isso é muito bom! Seria tão
    bom se houvesse vários Edu espalhados por esse nosso Brasil!

    um beijo

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  2. Esse trabalho está simplismente perfeito.
    Estive por aqui, mais ate agora não tinha achado local de postar comentários, até que enfim agora achei!!!
    Admiro e aprecio bastante uma bela arte.
    e esses, sem dúvidas é perfeito.
    Pratimônio!!
    Quero seguir uma carreira profissional no ramo da arte. Ter como base de cultura e conhecimentos.
    ass.: Rener Cambuí
    Parabéns, ótimo trabalho.

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  3. Perfeito!! Muito realista, adorei!! bjo

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