sexta-feira, 20 de março de 2020

- O Grito em Quarentena -

Acrílico sobre tela - 40 x 50 cm - 2020
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Ainda estamos no início de 2020 e parece que já se passou muito mais do que apenas 3 meses do ano, principalmente no Brasil, dado ao volume de acontecimentos que vem ocorrendo. Naturalmente, um fato que não tem como desprezar é a pandemia de corona vírus (o covid-19) que vem causando muitos estragos mundo afora e que até este momento, timidamente no cenário brasileiro, vem mostrando sua cara e assustando as pessoas, que estão sendo obrigadas a se isolar em casa para evitar que o contágio se alastre. Como eu já disse diversas vezes por aqui, a arte tem que falar do seu tempo, dar o seu testemunho e naturalmente o assunto é este, mas como tratar de forma eficiente sobre algo que vem causando tanta angústia nas pessoas? A saída foi recorrer para a história da arte e fazer uma releitura de uma obra que é talvez o símbolo maior da angústia na arte: "O Grito", de Edvard Munch.


O processo artístico

"O Grito em Quarentena" (detalhe)
Já há algum tempo venho projetando uma série artística sobre releituras de obras famosas e estou ensaiando começar esta produção há uns meses. É um exercício interessante porque, além de ser um bom estímulo para a criatividade, testa nosso senso de observação e nos leva a buscar mais informações sobre as obras, os períodos e os artistas que são objeto da releitura… naturalmente, é sempre importante lembrar que “releitura” não significa “cópia”, uma confusão bastante cometida pelas pessoas. A releitura é utilizar a linha de pensamento principal de uma coisa pré-existente e resignificá-la, deixando claro alguns elementos que identifiquem a obra referenciada.

As telas "Olympia" de Manet e "Olympia Moderna" de Cézanne.
A releitura é e foi um artifício bastante utilizado por diversos artistas mundo afora. Obras famosas também foram releituras de outras obras famosas como é o caso de “Olympia moderna” de Cèzanne, que foi uma releitura de “Opympia” de Manet, ambas motivo de muita repercussão. Picasso já fez algumas releituras como das obras de Delacroix (“As mulheres argelinas em seus apartamentos”) e Velásquez (“As meninas”). Eu poderia citar também trabalhos de releituras feitos por outros artistas como Lichtenstein, Vik Muniz, entre outros tantos.

"O Grito em Quarentena"
(detalhe)
No meu ponto de vista, obviamente, o que faz uma releitura ganhar maior relevância é quando ela, tomando como referência outra obra, consegue transmitir uma mensagem própria, abordando temas atuais, refletindo sobre assuntos comuns a todos. Num período altamente imagético como o nosso, as imagens precisam também focar em assuntos densos, estimular a reflexão ainda que não seja uma tarefa das mais simples.

Referências

"O Grito" (1893) de Edvard Munch
A referência óbvia é a obra “O Grito” do norueguês Edvard Munch. Naturalmente a escolha por “O Grito” se deu muito mais pelo reconhecimento fácil da obra, mas admiro muito o trabalho de Munch no geral, apesar de perceber muito poucas semelhanças do estilo dele com o meu. Munch teve uma vida marcada desde cedo pelo drama da morte com sua mãe e irmã falecendo ainda em sua infância (talvez a única breve semelhança entre a história de vida dele com a minha) e sempre sentiu essa presença incômoda rondar sua porta, por conta de sua saúde frágil (era asmático, perdeu um dedo da mão num acidente com um revólver, sofria de transtorno mental e mais tarde, em 1930, sofreu de uma doença ocular). Em seu trabalho é muito fácil perceber o quanto o artista aborda os sentimentos (como em “Mulher-vampiro”, “Angústia”, “Ciúme”, o medo e a sexualidade aliados em “Puberdade”, por exemplo), ainda mais levando em conta a forte carga de expressividade que seu estilo contém.

"Mãe Morta" de Edvard Munch
Munch gozou do prestígio pelo reconhecimento de sua obra em vida e mesmo tendo seu trabalho incluído na lista da “arte degenerada” pelo regime nazista, sua boa reputação na Noruega nunca foi abalada. A tela “O Grito” faz parte de uma série que é composta pelas obras “A Ansiedade” e “O Desespero”. Feita em óleo, têmpera e pastel sobre cartão, Munch chegou a realizar até 50 cópias e variações desta arte. Talvez, ao lado de "Mona Lisa" de Leonardo Da Vinci, esta seja uma das obras mais conhecidas em pintura, se tornando parte da cultura pop de tanto que é reproduzida, inspirando personagens como o da figura central do filme “Pânico”, sucesso mundial. Em 2012 se tornou a pintura mais cara da história ao ser leiloada pela Sotheby’s por 119,9 milhões de dólares.

Nuvens estratosféricas polares, efeito atmosférico raro que geram cores únicas no céu.
Quando esteve na França, registrou em seu diário uma possível pista sobre a origem do quadro: “Caminhava com dois amigos pelo passeio, o Sol se punha, o céu se tornou repentinamente vermelho, eu me detive; cansado, apoiei-me na grade – sobre a cidade e o braço de mar azul-escuro via apenas sangue e línguas de fogo -, meus amigos continuaram a andar e eu permanecia preso no mesmo lugar, tremendo de medo – e sentia que uma gritaria infinita penetrava toda a natureza”. Em 2017, pesquisadores noruegueses sugeriram que a paisagem feita por Munch na verdade fosse a reprodução de um raro fenômeno atmosférico causadas por um tipo específico de nuvens (nuvens estratosféricas polares do tipo 2A) que geram cores únicas no céu e que provavelmente tenham surgido naquele tempo e impressionado Munch, como sugere o seu texto mais acima.

A Obra

"O Grito em Quarentena" (detalhe)
A produção deste trabalho foi relativamente rápida e bastante agradável de ser feita. Como eu pintei em tela, tive que partir para a técnica da pintura em base tingida, buscando aproximar o tom do suporte que eu estava utilizando (uma tela branca, que eu pintei antes de “terra de siena”) do suporte em que Munch trabalhou (cartão, que provavelmente era pardo). O contexto atual ao meu ver torna a mensagem bastante relevante, com as pessoas se isolando por conta da pandemia de coronavírus (covid-19), muitos locais em todo o mundo em quarentena para evitar o contágio e uma grande dose de medo espalhado pelo ar desse inimigo invisível que está mexendo com o comportamento de muita gente neste ano.



Imagens: Google

Licença Creative Commons
"O Grito em Quarentena" de Eduardo Cambuí Junior está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em https://www.arteporparte.com/p/contato.html.

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