quinta-feira, 16 de maio de 2013

- Crônicas Macaubenses - Política -

Nanquim - 15 x 15 cm - 2012
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Em meados do ano passado, ganhei de presente um belíssimo caderno de desenhos (feito artesanalmente) de um amigo meu, que ao passar uns dias por Florianópolis, viu e acabou comprando um pra mim. Todo pintor que se preza, tem que ter o seu caderno de esboço e ele sempre vai ser útil, pois é lá que o artista vai colocar suas ideias no papel, fazer seus estudos para futuras pinturas, ou mesmo para certas partes da obra. Como nem sempre eu utilizo um caderno de esboços (pego a primeira folha que eu acho por perto), então decidi utilizar este caderno para esboços mais bem trabalhados. Logo surgiu a ideia de fazer uma série de desenhos sobre as coisas que acontecem em Macaúbas.

Como muitos sabem, eu não sou macaubense... sou paulistano e Macaúbas, que é a terra dos meus pais, me recebeu com carinho e cá estou eu, gosto daqui e contribuo como posso para fazer daqui um lugar cada vez melhor, algumas vezes me metendo na questão cultural do município (quando vejo espaço pra isso e quando acho que vai ter algum resultado efetivo).

A primeira crônica desta série é sobre a questão política, com costumes muito similares na região. Em cidade maiores, a política é uma coisa mais fria, mais distante, afinal, quanto maior é a cidade, mais difícil é encontrar os líderes políticos. Como acontece com a maioria das cidades pequenas do interior da Bahia, a política é um problema sério porque ela não é encarada da forma como deveria ser e para piorar, a prefeitura costuma ser o principal empregador. É uma questão cultural mesmo... em grande parte delas, formam-se duas oligarquias que ficam se revezando no poder e a coisa costuma ser pior quanto menor é o lugar, pois passam a ser duas oligarquias que não fazem nada.

A defesa do bem do município é algo que é deixado para segundo plano... o interesse pessoal acaba falando mais alto. Voto em troca de favores é algo muito comum e geralmente é proposto pelo próprio eleitor! Talvez por conta disso mesmo (ou por algum outro motivo qualquer), em períodos de eleição a cidade fica fervorosa, amizades se rompem por meras escolhas políticas, brigas acontecem (de porrada mesmo), a poluição sonora cobre o ambiente com os carros de som propagandeando a torto e a direito, sem contar que nos fins de semana é travada uma guerra de carreatas, passeatas e qualquer outra coisa que mostre uma multidão apoiando um candidato, que vai alimentar a especulação local de quem vai levar o cargo. Beira o caos!

Como não poderia deixar de ser, o resultado prático depois dessa "feira livre eleitoral" não é lá muito prático. Muitos projetos propostos em campanha não se concretizam, salvo raras exceções. Grande parte dos vereadores eleitos também seguem a mesma fórmula. Muitos projetos que são apresentados, mostram falhas importantes de estrutura, talvez porque sejam feitos sem um profundo conhecimento do problema ou mesmo, sem ouvir a opinião pública. Neste ponto, Macaúbas até teve mais sorte pois evoluiu bastante nos últimos anos graças a um período de vontade política em fazer o município progredir.

O desenho de hoje mostra, de uma forma bem dramatizada, um encontro tenso entre duas militâncias políticas mais ou menos nos moldes de uma antiga batalha medieval, fazendo assim um paralelo com esta característica política tão atrasada como a daqui. Nestas últimas eleições, assim que começou a bagunça, tive a ideia de fazer este desenho. Cheguei até a cogitar fazê-lo num mural em praça pública, mas deixei pra lá.

Como já dizia o grande mestre Pablo Picasso, uma obra de arte não pode ser pensada apenas como uma peça decorativa... ela também tem algo de crônica, algo de político, algo de contestador. Outro mestre espanhol, Francisco de Goya, também gostava de abordar os temas contemporâneos de sua época, sem poupar críticas, principalmente em suas gravuras, reconhecidas por tal característica. Com isto, ele incomodou muita gente, inclusive a igreja, que em troca incomodou ele também. Hoje a arte visual não tem a mesma importância para as pessoas... é preciso de muito para chocar alguém. E para quem gostou e quer mais, aos poucos eu vou publicando por aqui as outras que foram feitas.
Gravura de Goya - "O sonho da razão produz monstros"


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Crônicas Macaubenses - Política de Eduardo Cambuí Junior é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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