sexta-feira, 31 de outubro de 2008

- Santo Sudário -

Óleo sobre tela - 24 x 35 cm - 1998
Hoje vai ser uma pintura do fundo do baú. Esta aqui foi a primeira tela que eu pintei que saiu exatamente do jeito que eu queria. Na época, ao terminar a pintura, quase entrei em "êxtase" com o feito, já que até aquele momento as minhas pinturas não estavam me animando muito. Isso geralmente acontece mesmo no início... ainda mais porque eu já tinha feito algumas que me deixaram mais decepcionado do que animado, já que entrei nessa praia sem professor pra dizer por onde ir, onde virar. Ou seja, aconteceram algumas derrapadas neste início. A maioria das telas de quando eu comecei a pintar não existem mais porque acabei pintando por cima mesmo, sem dó nem piedade.



A idéia surgiu como uma opção de presente para um chefe do meu trabalho da época (1996, mais ou menos), que segundo eu soube, tinha muita vontade de ter uma pintura religiosa. Mas tinha que ser algo especial... eu não poderia fazer uma pintura de um santo como qualquer um destes que vendem pronto por aí. Como a minha religiosidade se resume apenas em acertar as minhas contas com o cara lá de cima num papo mais descontraído, sem a interferência de padre, pastor ou administrador, sem dogmas, fanatismos, dízimos, idolatria, simbologias, culpas, rituais, obrigações, discussões, etc., tinha que ser do meu jeito, afinal, seria um presente meu pra ele (claro!). Aí me lembrei do Santo Sudário! Vocês sabem... o sudário é o manto que cobriu o corpo de Jesus e que com o tempo ficou "impresso" o corpo dele lá, e até hoje a igreja e um rebanho de cientistas ficam fazendo vários testes pra comprovar a sua veracidade, sem chegar a resultado nenhum. Independente do que ele simboliza, eu sempre achei o máximo a imagem em si, que me parecia uma pintura natural (o que não deixa de ser)... uma mancha quase abstrata trancafiada hoje no Vaticano (aliás, nem tenho certeza se está lá mesmo!).

Depois de decidido o que fazer, nem me preocupei em planejar como seria, pensar a pintura antes de começar... meti as caras e fui fazendo (de cabeça, sem nem ter uma imagem do sudário) e aconteceu o que era óbvio naquele momento: saiu uma merda! Tão ruim (ao meu ver) que nem dei presente nenhum pro cara, no fim das contas. Encostei a tela num canto qualquer por uns anos, mas fiquei pensando numa maneira melhor de fazê-la depois. Passou dois anos, eu já tinha achado uma forma legal de fazer a pintura, mais ou menos seguindo o próprio estilo do sudário, sem pensar em definir nada. Acontece que, pra mim, não definir as imagens das pinturas é muito difícil! Automaticamente vou definindo os contornos, as formas e quando vejo, já é tarde, afinal, como eu sou míope, eu passei minha vida toda tentando definir as imagens... acho que é bem compreensível!

E voilá! Finalmente saiu do jeito que eu estava planejando. Simples, poucas cores (só duas) e pronto. Algum tempo depois inventei de fazer a mesma pintura numa tela maior, só que em alto relevo, mas quem é que disse que a gente consegue fazer a mesma pintura duas vezes? Ou fica pior ou fica melhor... igual nunca! E esta, a primeira, foi a melhor. Pra incrementar o post de hoje, vai uma citação que encontrei por acaso há poucos dias do poeta e filósofo alemão Friedrich Von Schlegel (que eu nem fazia idéia de quem era, confesso!).

"Artista, só pode sê-lo quem tiver uma religião própria e uma concepção original do infinito"

Friedrich Von Schlegel



Muito sabido o tal rapaz!


Licença Creative Commons
Santo Sudário de Eduardo Cambuí Junior é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Vedada a criação de obras derivativas 3.0 Unported.

2 comentários:

  1. Amigo:
    Toda corroída por dentro, devido a uma grande decepção, essa obra sua veio a calhar. Fiz post novo, sobre um filme dos anos 1980, de que gosto muito e inclui sua obra na postagem. Há poesia, imagens, como sempre. Estou à sua espera.
    Um abraço,
    Renata

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