quarta-feira, 16 de setembro de 2009

- Visão -

Óleo sobre tela – 70 x 70 cm – 2003
Clique na imagem para ampliá-la
Seguindo a “série” de pinturas que foram feitas tomando como inspiração as situações inusitadas malucas do dia a dia, hoje vamos tratar de mais uma das que aconteceram comigo: visão. Observando por este ponto, realmente o nosso inconsciente é o paraíso para as mais loucas aventuras se realizarem e geralmente é nos sonhos onde tudo isso aflora... e em algumas vezes, nem precisarmos estar dormindo pra isso. Na história da pintura, muitos pintores famosos se valeram desse terreno fértil para produzir seus trabalhos, como foi o caso dos surrealistas.



Fora da insanidade dos sonhos, é possível observar hoje em diversas instituições de tratamento psicológico o uso da pintura como válvula de escape e também como forma de tratamento para seus internos, como acontecem nos CAPS – Centro de Assistência Psicossocial espalhados por diversas cidades ou até mesmo no Juquery, famosa instituição para tratamento psiquiátrico de São Paulo que faz um trabalho muito interessante com os pacientes através da pintura que é o Juquery: encontros com a arte. Inclusive, no final de 1998 em comemoração aos cem anos da instituição, foi publicado um livro pela Lemos Editorial com uma coletânea de trabalhos de arte de seus pacientes (como pode ser observado abaixo, numa das obras dos pacientes expostas no livro citado), além do histórico do Juquery, naturalmente.

Sem título (1997) - Maria Aparecida Dias

Mas voltando ao assunto, a idéia para a pintura de hoje surgiu a partir de um sonho maluco, como aconteceu também com a pintura do post anterior. O sonho em questão foi muito curioso e impressionante: nele, eu me via dormindo, mas incomodado com alguma coisa no olho, como um cisco. De repente, como se num filme surrealista, eu via o meu próprio olho gigantesco, como se fosse do tamanho de uma grande parede, enquanto eu observava o abrir e fechar das pálpebras, também gigantescas, que assustadoramente piscavam, na tentativa de minimizar o incômodo, enquanto eu via tudo aquilo de um ângulo em que eu me sentia muito pequeno, como se fosse uma micro-câmera. Acordei deslumbrado com o sonho e fiquei quebrando a cabeça em como poderia pintar algo assim... só tinha uma certeza: a pintura tinha que ser grande. Infelizmente a maior tela que consegui encontrar foi de 70 x 70 cm., o que inicialmente julguei servir para o propósito, mas que depois, refletindo melhor sobre a pintura nas vezes em que ela foi exposta aqui, percebi que ela precisaria ser muito maior para causar a mesma sensação que tive no sonho para quem observa.

Pra isso, tive que me tornar quase um oftalmologista amador, de tanto que eu pesquisei imagens de olhos, fotografando olhos, observando atentamente os olhos das pessoas ao meu redor, enfim... eu que herdei alguns problemas de visão e que, não sei se por isso mesmo, adoro olhos, fiquei super atento aos detalhes como a íris, a pupila, etc. Eu não podia ver olhos claros (porque é mais fácil de observar estes detalhes) que eu já ficava “hipnotizado”. Na pintura, o efeito da íris do olho ficou muito bom, alguns detalhes pequenos como as pequenas veias que existem no branco dos olhos também, mas foi uma pena que a tela não ter sido maior. O ideal, ao meu ver, era ser pintado numa tela de uns 500 x 500 cm, mais ou menos. Mas tirando o tamanho, até que a pintura saiu boa.

O próximo post será de outra obra que finaliza essa “série sem querer” de pinturas inspiradas no inusitado da imaginação.

Fontes: Livro: Juquery - encontros com a arte, 1998 - Lemos Editorial


Licença Creative Commons
Visão de Eduardo Cambuí Junior é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Vedada a criação de obras derivativas 3.0 Unported.

9 comentários:

  1. Oi, Edu!
    Quanto à sua obra, acho que não tenho muito o que falar, pois para mim tudo o que vc vem fazendo, e eu sempre o acompanhei, está cada vez mais deslumbrante, e a narrativa da "gênese" da obra, de como você a desenvolveu, as pesquisas que realizou - a pesquisa sobre olhos me encantou muito, porque tenho obsessão por olhos - é muito fluente e envolvente. Minha obsessão por olhos: por ter sido sempre obrigada a mudar de lentes coloridas, meus olhos verdes, naturais, se habituaram a passar para o azul, o castanho e o preto num instante. Tenho coleção de fotos dos meus olhos mutantes. Já não lhes mudo a cor, só o grau, numa velocidade tal, que me questiono aonde isso vai dar. Retomando, estive no Blog do Carlo, tenho estado sempre, porque ele tem exposto uma série de auto-retratos com olhos simplesmente enigmáticos. Teço comentários imensos, aos quais, na hora, ele me vai responder filosoficamente. Um dia me deparei com um olho TREMENDO, que me meteu medo, mas o encarei. E lhe disse uma coisa que repito a você: essa questão dos nossos sonhos, principalmente os obsessivos e recorrentes, cujos fragmentos ficam na memória. Para mim, isso é efeito do Cinema, a rapidez do sonho, os flashs, os olhos. Na última foto que vc apresenta, o olho me lembrou muito o "olho" da abertura do Blade Runner. Vc sabe que esse filme é uma obsessão minha. Acho que se lembra de que foi a minha primeira resenha no meu 1o Blog, que nem se chamava Galeria. Pesquisei, revirei, vi a condição do "ser" do replicante expressa no olho "eye" e no "I" do replicante, com todas as suas implicações.
    Para finalizar, digo que você está chegando lá, quase no ponto, falta pouco. Também aproveito e agradeço as freqüentes visitas ao meu Blog de filmes. Tento não ser superficial. Não sei se vc tem paciência de ler tudo, mas ontem, no tributo que fiz a Patrick Swayse, eu o relembrei justamente por um dos filmes que vc citou, "Vidas sem Rumo", e por "Rumblefish". Fiz a postagem sobre "Dirty dancing" para afagar a alma de alguém que precisava, porque sim. Não custa nada. Hoje, fiz "Menina de Ouro" e tentei nadar um pouco nas profundezas, mas vim logo à tona e vc sabe por quê. Também deve imaginar o que o título me lembra: as meninas dos olhos, as pupilas.
    Beijos, amigo,

    ResponderExcluir
  2. Continuo achando que, além de pintar, escreves muito bem, também! Já pensaste sobre isso, ou será que já tens uns textos "escondidos" em tuas gavetas e não queres nos mostrar?
    Olha Edu, acho difícilimo pintar olhos. Quando comecei a pintar, cheguei a esboçar alguns e, confesso, achei difícilimo. Mas este que pintaste ficou muito bom mesmo!
    Achei também mencionares os trabalhos dos artistas do Juquerí. Achei excelente o trabalho de Maria de Jesus Dias. Existem muitos trabalhos bons feitos pelos artistas de lá e do Pinel,no Rio de janeiro. Muito bom divulgá-los. Parabéns por fazê-lo.Eles merecem.
    Bjs
    P.S.: notei que o "cirandeira" não está mais visível no painel de de teus "seguidores". O que aconteceu? Não queres mais que te acompanhe? rrss

    ResponderExcluir
  3. Respondendo:

    Renata: Pois então... a nossa mente é um mistério mesmo! O nosso inconsciente coleta tudo e nos sonhos, essas super-produções aparecem! Não tinha lembrado do Blade Runner, mas agora que você tocou no assunto, lembrou mesmo!
    Sobre o seu blog de filmes, sempre passo por lá! O "Vida sem rumos" é um filme muito interessante e já fazia um tempão que não me lembrava dele. Ainda mais porque tinha uma música muito legal do Stevie WOnder nele.
    Bjão!

    Cirandeira: Obrigado pelos elogios! Na verdade, de vez em quando eu escrevo alguma coisa aqui e ali, mas nada assim de especial por enquanto. Sobre pintar olhos, realmente é muito complicado... a gente tem que penar um bocado pra chegar no nível que esperamos. Eu gostei desse também, mas eu pretendo fazer um outro melhor no futuro. Só resta saber se vou conseguir! Sobre os artistas do Juqueri, achei o trabalho da paciente muito bom! Foi uma grata surpresa pra mim também! E sobre o sumiço do seu nome nos "seguidores", não sei o que houve, mas aqui pra mim você está lá, só que sem foto. Deve ser algum problema do blogger!
    Bjão!

    ResponderExcluir
  4. Pois é, meu querido! E pensar que a pioneira nesse tipo de tratamento através do sonho e do inconsciente foi a nossa esquecida Doutora Nise da Silveira, a única brasileira a ter um encontro com Jung, o Mestre do inconsciente coletivo. Lá no nosso espaço, entreguei-lhe uma rosa com muita devoção.
    Quanto ao seu trabalho e o seu método de realizá-lo spo posso, mais uma vez e com prazer renovado, parabenizá-lo. Maravilhoso!!!Bjssss

    ResponderExcluir
  5. Que olho! Depois do "homem invisível"... trabalho primoroso, meus parabéns!
    parabéns também por divulgar um dos trabalhos
    dos internos no Juqueri. Eles fazem coisas incríveis, e essa Maria de Jesus...muito bom o trabalho dela!
    Abs

    ResponderExcluir
  6. Oi Edu, amanhã, 18/09, o "cirandeira" faz aniversário: 1 ano de existência! Apareça por lá,terei o maior prazer com a sua visita!

    Bjs

    ResponderExcluir
  7. É curioso... Eu nunca sonho... Os seus sonhos são bem produtivos, pois as obras surgem. Narrativas sempre bem construídas e atraentes. obrigado pela visita. Tudo de bom.

    ResponderExcluir
  8. Respondendo:

    Vanuza: E aí, minha cara!! Não conhecia essa doutora brasileira... vivendo e aprendendo. Passei rapidinho por lá esses dias, mas não encontrei a rosa. Depois eu passo lá e procuro com mais cuidado.
    Bjão!!!!

    Giramundo: Obrigado pelas palavras!!! Observando o trabalho dos internos do Juqueri, percebemos mais claramente o quanto a arte é fantástica. Valeu!!!

    Cirandeira: E aí, Maria! Parabéns para o blog e para você, que o mantém com tanta coisa legal pra gente!!

    Poematar: E aí, meu caro! Rapaz... já conheci algumas pessoas que diziam a mesma coisa, mas na verdade, não se lembravam nunca dos seus sonhos. Mas sonhavam. Quanto aos meus, eles são meio malucos, mas com certeza tem me servido para muita coisa, inclusive na inspiração para pinturas. Valeu!!!

    Glaucy: Poxa... que surpresa danada! Vou dar uma passada lá no seu blog, pois tenho certeza de que deve ter muita coisa boa lá!! Bjão (e não suma!)!

    ResponderExcluir

Seu comentário será sempre bem-vindo. Assim que for possível, eu retorno!