quinta-feira, 22 de setembro de 2011

- Tensão -

Nanquim - Tamanho A4 - 2011
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Houve um tempo em que o medo comum do homem era se tornar o prato principal de qualquer animal faminto na floresta. Depois foi o risco de ser escravizado por algum povo conquistador, que depois se tornou no medo de ser morto numa guerra e assim, com o passar do tempo, o medo foi mudando de rosto. Atualmente, acredito que o medo comum no Brasil é com a violência urbana... seja por um assalto, um sequestro, etc. O noticiário dos meios de comunicação, que visam prioritáriamente a busca pela atenção, só fazem aumentar a nossa paranóia com relação a tudo. Basta passar numa rua um pouco mais escura e deserta que o estado de alerta dispara... e tudo tende a piorar se algum personagem que faz parte de qualquer estereótipo suspeito entrar no nosso campo de visão. Neste momento, o medo assume o lugar de juiz e dá o veredito por antecipação, sem esperar pelas evidências. É exatamente disso que o desenho de hoje fala.


A idéia surgiu por acaso, de um desenho fugaz num pedaço de papel, que acabou coincidindo com uma idéia que eu já tinha em mente para uma futura pintura ou desenho. O desafio aqui era colocar a expressão corporal correta dos personagens para deixar que cada observador tivesse a sua leitura da cena. Seja no receio (ou pena, dependendo do olhar de cada um) sobre um barbado mal vestido sentado na rua, ou mesmo na raiva (ou numa segunda intenção escondida) de alguém que se sentiu ofendido com o olhar desferido em sua direção. Quem sabe? Tudo fica muito sub-entendido neste trabalho... cabe ao espectador dar sua versão da história.

Ainda sobre a expressão, o tronco um pouco inclinado para trás do engravatado dá a impressão de que ele está inseguro, titubeante ao perceber o olhar ameaçador do homem sentado no chão, que apoia sua mão numa caixa de madeira de conteúdo suspeito. O que ele pensa? Quais serão suas intenções?

Analisando melhor o desenho agora, a imagem pode ainda sugerir até mesmo a paranóia dos países de primeiro mundo (Estados Unidos, Inglaterra, França, etc) com a ameaça do terrorismo, se levarmos em conta que o personagem sentado (causador de toda a tensão da cena) é uma figura que se encaixa no estereótipo de terrorista pronto a qualquer ato extremo.

Apesar do desenho não ser num tamanho grande, deu muito trabalho por conta do sombreamento feito em hachuras, que dominam a maior parte do trabalho. No começo pensei em utilizar o bico de pena, mas isto levaria o dobro do tempo. Parti então para a caneta técnica, tanto recarregável como descartável, utilizando-a nas suas diversas espessuras (0.1, 0.3, 0.4 e 0.7) além do pincél para outras partes. Achei que este desenho seria a oportunidade certa para utilizar este tipo de material.

Enquanto estava fazendo este desenho, não tive como não lembrar por um momento dos trabalhos do ilustrador Gustave Doré, que são incríveis e que me fez pensar no quão árduo deve ter sido a produção dos seus trabalhos, o que só faz aumentar o seu valor estético. Enquanto isso, aos poucos, vou tentando chegar no mesmo patamar (se é que um dia será possível).

Licença Creative Commons
Tensão de Eduardo Cambuí Junior é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Vedada a criação de obras derivativas 3.0 Unported.

2 comentários:

  1. Muito legal o teu trabalho com nanquim, Edu; bem
    diferente do que costumas fazer.
    PARABÉNS!

    bjão

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  2. Olá, Edu|

    Cadê as suas visitas no Matinho?

    Estou a apreciar as suas obras...

    bj


    BIA

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