quarta-feira, 30 de novembro de 2011

- Pensando alto -


Hoje a publicação não será sobre uma pintura, como é o costume no "Arte por Parte". Não será uma pintura, mas não pela falta de opções para expor aqui (ainda há muitos bons trabalhos para figurar neste espaço), e sim por haver outras coisas dentro da própria arte que valem tanto quanto a obra em si... o processo artístico, por exemplo, é um deles. Vamos tratar aqui hoje de arte contemporânea. Como todo artista deveria fazer, eu mantenho bem perto de mim toda a história dos grandes mestres da pintura, seja como uma forma de inspiração, como também uma fonte de aprendizado e referências. Faço isto através de uma coleção pessoal de livros sobre estes grandes pintores que admiro e que, de uma forma ou de outra, me influenciam em algum nível. Naturalmente, a coleção cresce, aos poucos.

Recentemente, comprei um livro recém lançado chamado "501 artistas" (editora Sextante), um guia contendo 501 artistas organizados cronologicamente, ilustrado e com um breve histórico de suas vidas e carreiras. Apesar do livro ser enorme (640 páginas), ele não é cansativo e é vendido por um preço muito acessível (recomendo!). Pois bem... lá estava eu em casa folheando prazerosamente o livro recém comprado e extasiado por saber de alguns detalhes de alguns pintores que eu desconhecia e, no caso de alguns, por conhecer seus rostos. Quando o livro chegou no período contemporâneo, a coisa começou a incomodar. Tanta gente desconhecida, com trabalhos tão desconexos... mas reconhecidos. Fiquei pensando comigo.


Nos anos 60, Duchamp chocou o mundo da arte com o seu urinol, produto do que ele havia denominado como ready-made. Nascia alí a arte conceitual. Uma das coisas mais sábias que Duchamp fez, na minha opinião, foi questionar as instituições que decidiam o que era ou não arte. Dependendo do ponto de vista (sempre há um bem próximo de você!), foi uma bela sacada justificar sua arte mais ou menos parafraseando o filósofo Aristóteles, que dizia: "A arte é a ideia da obra, a ideia que existe sem matéria."


Acontece que a partir de Duchamp, um monte de "gênios" artistas resolveram repeti-lo, vendendo para galerias, museus, etc (coisa que o próprio Duchamp fez, contradizendo sua própria ideia). Como eu gosto muito de citações, ainda que nem sempre eu me lembre de quem as deu vida, cabe uma boa aqui: "governo corrupto é todo aquele do qual eu não faço parte!". A memória falhou agora sobre quem é o autor desta frase iluminada, mas parece se aplicar perfeitamente à este caso.

Desde então, a arte contemporânea vive um caos. Pintar telas figurativas do jeito tradicional (criar imagens com tinta uma tela de algodão cru tratado) é quase uma heresia. O lema agora é chocar o público, inovar na matéria prima, fazê-los queimar os neurônios para descobrir o que aquilo quis dizer. Tudo bem que houve uma época, nos anos 60, que a ideia era ir na direção contrária das belas artes... era algo interessante, até o momento em que se transformou em regra. Aí virou besteira! A coisa anda muito feia... só para citar algumas esquisitices: Já teve artista enlatando fezes e vendendo cada uma (foram feitas 90 exemplares) a peso de ouro como "Merda de Artista" (Piero Manzoni), assim como teve outro que fez uma máquina gigante (chamada "Cloaca") que transforma comida em fezes, embalando e colocando o produto a venda (Wim Delvoye). Outro dia, vi uma notícia de uma obra de arte ("Quando começa a gotejar do teto") de um artista (Martin Kippenberger) que foi destruída acidentalmente por uma faxineira de um museu alemão: a obra era uma instalação com torre de ripas de madeira (tipo um andaime estilizado), com uma bacia preta de borracha na base e que tinha uma mancha de cal: pois a faxineira caprichou no serviço e limpou o cal de lá!

"Cloaca" de Wim Delvoye
"Quando começa a gotejar do teto" de Martin Kippenberger

Traduzindo tudo isto, parece que basta um bom argumento que justifique que qualquer porcaria achada por aí possa ser considerada uma obra de arte que provoca as pessoas. Vale mais provocar, xingar, enojar, culpar, ou qualquer coisa do tipo, do que fazer com que as pessoas admirem o trabalho. A arte chegou num beco sem saída, que só a marcha ré pode salvar! É claro que tudo isto escrito aqui é uma mera opinião pessoal, mas cá pra nós... será que se Van Gogh, Rafael ou Rembrandt estivessem  vivos, começando suas carreiras na arte agora, eles teriam alguma chance de sucesso? Esta é uma daquelas perguntas chatas que insistem em ficar sem resposta, infelizmente!

Imagens: Google

3 comentários:

  1. Edu! essa tua postagem está excelente! Tuas ponderações são muito relevantes, embora não ache que a arte está num beco sem saída, porque
    o que está acontecendo atualmente é um reflexo
    da nossa sociedade. Se Van Gogh, Rafael ou Rembrandt fossem vivos, o trabalho deles seria
    totalmente diferente, acho. Porque a realidade
    é outra, o mundo é totalmente diferente da época
    em que eles viveram. O importante disso tudo é
    poder encontrar artistas como tu, que questionam
    permanentemente a si e ao que está à sua volta.
    Gostei muito!

    bjão

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  2. velho junior, por isso sou mais as nossas pinturas, rsrsrsr. E esse livro é bom msm achei ele em uma promoção aki, tem uma galera q nao conhecia.
    abraços.
    iago

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  3. Respondendo:

    Cirandeira: E aí, Ci! Eu sei que eu disse que a arte está num beco sem saída, mas no fundo eu sei que ainda há esperanças (rs)! O negócio é que tem vezes que vêmos certas coisas que acontecem e aí é inevitável não pensar nesse caos atual. Pode até soar como besteira tudo isso do post, mas este mundo da arte parece algumas vezes como uma montanha russa.
    Obrigado pelas palavras! Bjão!

    Iago: Olha só que surpresa! Engraçado é que eu comprei este livro também numa dessas promoções imperdíveis!! Valeu a pena!
    FaloU!

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