segunda-feira, 23 de março de 2015

- A Leitora -

Acrílico sobre tela - 50 x 60 - 2014
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Eu já havia comentado aqui no Arte por Parte anteriormente que certas pinturas, por vezes, demoram mais do que o normal desde o início até a sua conclusão por variados fatores… a pintura de hoje foi um desses casos. Geralmente a ideia surge e leva um tempo até sair do papel para a tela. Acho que até cabe encarar este processo quase como uma gestação. Neste caso específico, foi uma gestação bem longa! O processo artístico passa por algumas fases e em grande parte das vezes se inicia (para mim, obviamente) quando eu escrevo a ideia em algum lugar para só depois fazer um pequeno esboço, quando ele é feito (o que muitas vezes não acontece). Até este desenho ser desenvolvido na tela, muitas outras coisas acontecem. É o desenho que tem que ser bem pensado (o que confesso que nem sempre acontece como deveria), a escolha de boas referências (quando é necessário), a perspectiva, a escolha das cores, enfim, tudo que envolve o contexto. Quando estamos iniciando na pintura, o pequeno fato de iniciar um trabalho numa tela em branco se torna quase como um ato de coragem... sempre fica latejando no subconsciente a pequena dúvida de saber se vai dar certo, se não vamos estragar a tela rabiscando alguma ideia que pode não funcionar, entre outras coisas que simplesmente devemos ignorar para que tudo possa dar certo... é claro que, com o tempo de prática e o autoconhecimento de nossas capacidades, essas dúvidas vão se desintegrando e não surgem mais.


O Processo Artístico

"São Jerônimo" de Leonardo da Vinci - obra
inacabada
Voltando ao tema, geralmente eu passo alguns desenhos para telas e vou alternando as pinturas… quando uma delas me enjoa um pouco, quando estou buscando uma referência melhor para algum detalhe ou quando surge algum outro trabalho que tem prazo para ser entregue, eu mudo o foco e parto para a pintura de uma outra. Isto também depende do tipo de tinta e comigo acontece principalmente em pinturas feitas em tinta a óleo, que demora bem mais pra secar. Para ter uma breve ideia de como isto ocorre, às vezes acontece de ter três ou quatro telas ao mesmo tempo no meio deste processo de produção no meu ateliê e algumas delas ficam lá no cantinho, esperando a sua hora. No caso específico desta, primeiro foi feito o desenho (não lembro muito bem quando, mas já deve ter mais de 4 anos) que com o tempo foi sendo melhorado. A pintura em si, demorou para começar e ficou um bom tempo parada na metade, mesmo que esta em particular tenha sido feita em tinta acrílica. Acredito que isto não acontece só comigo… grandes mestres da pintura do passado deixaram pinturas inacabadas, provavelmente num costume relativamente parecido com este meu, como foi o caso do grande mestre Leonardo Da Vinci que deixou inacabada sua obra "São Jerônimo", entre outros tantos.

Bárbara, a modelo que ajudou na
composição desta tela.
Para esta pintura, tive que explorar um pouco uma prima minha que serviu como modelo, ainda que a ideia inicial nunca foi deixar a fisionomia do personagem semelhante a minha prima. O tema da pintura trata de um costume que tem se mostrado em decadência entre os jovens que é a leitura de livros. O governo brasileiro em suas diferentes esferas tem buscado reverter esta realidade com ações que promovem o estímulo à leitura, mas acredito que esta realidade não esteja acontecendo apenas no Brasil. É até previsível que o hábito da leitura de livros tenha entrado em declínio por haver outras mídias poderosas que concorrem pela atenção dos jovens, como o vídeo, a internet, enfim. É claro que o país, por suas dimensões continentais, tem inúmeras realidades. No nordeste, o hábito de leitura de livros se mostra muito precário, comparado à regiões como a sul e sudeste, mais desenvolvidas. Escolhi retratar uma garota lendo um livro da biografia de Van Gogh por perceber, pelo menos localmente, que o hábito da leitura é um pouco maior entre as meninas. A escolha da biografia do artista como tema do livro foi apenas pela questão de ser um tema que naturalmente me interessa bastante e de um artista que admiro.

Referências

No início, a ideia era apenas fazer a jovem lendo um livro comum, que depois foi mudado para a biografia ilustrada de Van Gogh (que a modelo realmente estava folheando no momento do desenho), mas depois achei que seria muito mais interessante, em termos de composição, situar a personagem numa espécie de sala de leitura com outros tantos títulos dispostos em prateleiras ao fundo. A ideia foi tomando corpo, fui analisando os pequenos detalhes por um bom tempo, vendo obras do mesmo tema como o "retrato de Edmond Duranty" de Edgard Degas e "Moça com livro" de Almeida Junior, e talvez este tenha sido um dos principais motivos para que a pintura demorasse tanto para ser concluída.
Os trabalhos de Almeida Junior e Edgar Degas: referências para esta obra

De fato, esta pintura é quase como uma evolução de outra obra que eu já publiquei por aqui, que foi o "Ponto de Leitura", que também tratava do hábito da leitura e que, assim como esta, também tinha a obra de outro artista reproduzida na capa do livro (no caso desta, foi uma pintura de Norman Rockwell). De uma certa forma, o trabalho deste post influenciou na produção de "Ponto de Leitura", que na época em que foi iniciado, este aqui já estava com mais da metade da pintura feita.

Para a pintura destes livros, tomei como referência meu próprio acervo de livros. A disposição destes livros procura direcionar o nosso olhar para a personagem e para o livro que ela lê, que naturalmente se destaca no contexto, como uma obra dentro de outra obra, já que a capa do livro é ilustrada pela pintura “A planície em La Crau” de Van Gogh, o que fez com que o processo demorasse um pouco mais. Este artifício de usar elementos e/ou posições de personagens que compõe a pintura dispostos de uma forma estratégica buscando direcionar o olhar do espectador para um determinado ponto era um costume muito usado por grandes pintores do passado de diferentes movimentos artísticos, como por exemplo, em alguns trabalhos de Ucello e de Poussin.

"Vista da Planície em La Crau" de Vincent Van Gogh

A Obra

Além dos detalhes dos títulos dispostos nas prateleiras (que não são todos somente sobre pintura), os tons da parede ao fundo também foram estudados para que ajudassem a destacar os livros e o personagem. Procurei também passar para quem observa na fisionomia do personagem, uma expressão de prazer contido no ato da leitura. Um pequeno detalhe na prateleira superior que ajuda a quebrar o ritmo é um pequeno globo terrestre de vidro. Outro detalhe que mereceu atenção especial foi a escolha das cores. A ideia sempre foi destacar o personagem e não deixar com que as cores dos livros da estante pudessem "brigar" com o que realmente tinha de ser destacado.

A poltrona também foi um capítulo à parte… no início, a ideia era de que a poltrona fosse num tom vermelho mais escuro e até cheguei a pintá-la dessa cor, mas depois observei que assim a poltrona chamaria demais a atenção, o que não seria adequado para um objeto secundário, de composição. Desta forma, utilizei a velha e útil teoria das cores complementares (e já citada por aqui em outras oportunidades) que prega que dentro de um círculo cromático, as cores opostas contrastam entre si. Portanto, a escolha mais óbvia foi o roxo para contrastar com os amarelos da blusa da personagem e das nuances da pintura da capa do livro.

O resultado final me deixou muito satisfeito. De certa forma, esta pintura acabou se tornando quase como uma homenagem aos grandes mestres da pintura que foram lembrados através das lombadas dos livros retratados na estante, ainda que muitos outros que compõe a minha biblioteca básica de pintura tenham ficado de fora, como os artistas brasileiros, mas infelizmente não houve espaço para todos eles. Este já é o terceiro trabalho abordando o tema e que talvez eu não volte a revisitá-lo tão cedo.


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"A Leitora" de Eduardo Cambuí Junior está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional.

2 comentários:

  1. Parabéns, edu1 Um trabalho e tanto, cheio de detalhes, de pormenores que exigem muita técnica. e muita paciência. mas valeu a pena, obrigada por compartilhar;

    um beijão

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    1. Valeu, Ci! Realmente foi um trabalho que deu trabalho! rs
      Bjo!

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