sexta-feira, 11 de março de 2016

- Olhar -

Lápis dermatográfico - 13,5 x 21,3 cm - 2016
Clique na imagem para ampliá-la

Produzir atualmente um trabalho de pintura e/ou desenho é algo relativamente fácil dada a enorme variedade de materiais e cores disponíveis no mercado, da possibilidade de comprar via internet, enfim, a facilidade na aquisição destes materiais soa nos ouvidos como música, logicamente se for comparado há outros tempos (e nem é preciso voltar muito no tempo). Na história da arte, por muito tempo o próprio artista produziu seu material, buscando os pigmentos para conseguir as cores desejadas e mesmo com uma paleta restrita, eles conseguiam resultados ótimos. Talvez esta facilidade toda que temos em conseguir uma gama enorme de cores já prontas para usar acabe "atrapalhando" um pouco o desempenho, já que trabalhar com uma paleta restrita exige muito mais do artista, forçando-o a desenvolver sua técnica. Algumas vezes, me imponho este tipo de desafio e o trabalho de hoje foi o resultado de uma destas experiências.

O processo artístico

Diferente do que muitas pessoas pensam, e acho que já tinha comentado por aqui outras tantas vezes, geralmente o artista mais experiente não fica sentado por um longo tempo na frente de uma tela em branco (ou qualquer outro suporte) esperando que uma luz paire sobre sua cabeça lhe mostrando o que fazer. É claro que cada indivíduo tem suas particularidades, mas geralmente quando o artista senta para para fazer algo, ele já sabe o que vai fazer ainda que nem sempre a ideia esteja totalmente nítida em sua mente. No meu caso específico, eu escrevo as ideias assim que elas surgem e as deixo nesta lista ganhando corpo, germinando lentamente. Algumas vezes, recorro a esta lista (às vezes apenas para incrementar a própria ideia) e escolho uma delas, onde faço um trabalho menor como um desenho (colorido ou não) e se eu perceber que esta ideia funcionou bem, depois de mais um tempo eu produzo um trabalho maior, como uma pintura em tela. Normalmente a ideia escolhida ganha uma melhor produção, os detalhes são mais bem pensados, enfim, mas ao mesmo tempo, muitas das outras ideias que figuram na lista acabam não saindo do papel, porque esta lista cresce continuamente. Algumas vezes uma ideia fica muito tempo nesta lista, amadurecendo, até que num determinado momento ela ganha corpo de repente e toma sua forma.

Nos trabalhos que envolvem personagens, uma coisa que tento trabalhar mais é o olhar. Numa pintura ou desenho, transmitir algo numa única imagem é bem complicado e o olhar acaba se tornando uma importante ferramenta para isto. Em trabalhos que buscam passar uma mensagem mais complexa, todo recurso disponível é muito válido, seja o olhar, o gestual, etc. No fim das contas, a observação minuciosa é vital para o artista em todo trabalho, não importa qual seja ele. Além disso, a estrutura física do olho humano é extremamente interessante, como as cores que as íris possuem, a composição da pupila, enfim, observando de muito perto e devidamente iluminado, o olho é esteticamente magnífico, mesmo naqueles de cor escura.

Neste trabalho, por conta do material que foi usado também, não tive como detalhar ainda mais a complexa estrutura do olho. Neste desenho é interessante observar que a direção do traço tenta acompanhar a estrutura muscular do rosto. Ajuda muito que o desenhista tenha algum conhecimento (mesmo que superficial) da anatomia humana. Estudar a anatomia faz com que o artista seja muito mais seguro e intuitivo ao produzir desenhos do corpo humano. Gosto de pensar que o desenho tem que ser pensado quase como uma escultura, para dar a correta sensação de profundidade.

Referências

Neste desenho específico, não houve uma referência direta no que diz respeito à outros artistas da área. Aconteceu muito mais pela observação mesmo! Mas o trabalho em fotografia de Suren Manvelyan acabou me servindo indiretamente para melhorar ainda mais a produção deste trabalho. Suren é um fotografo armênio que tirou uma série de fotografias em ultra closes com uma câmera de alta resolução tanto do olho humano quanto dos olhos dos animais, tornando muito mais fácil perceber a incrível composição dos olhos. Seu trabalho é fantástico e seguramente vou ter que recorrer a eles no futuro para outras pinturas que tenho em mente.

Mas se fizermos um exercício de memória para buscar um grande mestre do passado que tenha tido uma grande contribuição para a fidelidade dos desenhos de olhos, acredito que ninguém supera Leonardo Da Vinci (e nem é preciso tanto esforço assim pra lembrar dele), tanto no que diz respeito à reprodução fiel em sua obra quanto em seus estudos de observação da anatomia humana, onde Leonardo dissecava os corpos dos cadáveres para entender melhor o seu funcionamento e desenhá-los. Se me lembro bem, Leonardo chegou até a escrever sobre isto elaborando uma espécie de "receita", com orientações para a melhor forma de dissecar um olho.
Estudos de proporções do olho e do rosto - Leonardo Da Vinci

Chega até ser meio redundante comentar isto aqui, já que é uma espécie de consenso de todos em todos os cantos, mas Leonardo Da Vinci pode ser incluído sem medo de errar num seleto top 10 dos maiores gênios que a humanidade já viu.


A Obra


Apesar de considerar este trabalho muito mais como um pequeno esboço melhor elaborado, o resultado foi muito satisfatório. A textura do lápis dermatográfico, que pode muitas vezes ser um empecilho importante para alcançar detalhes, neste caso me ajudou muito para criar a ilusão de textura da pele. Inclusive este desenho me levou a rever alguns outros que eu tinha feito antes e que retratavam olhos ou olhares. Inclusive, acabei encontrando muitos detalhes que poderiam ser melhorados nestes trabalhos antigos, um dilema que não tem como ser evitado.

O uso de uma referência é sempre uma ferramenta muito útil, sobretudo para alcançar melhores resultados, afinal, nada melhor para o artista do que um exercício de observação. No caso de desenho ou pintura de pessoas, os artistas do passado (e ainda hoje, alguns continuam fazendo isso) utilizavam os modelos que posavam para eles, enquanto o trabalho era feito. Já fiz isso também, mas prefiro utilizar a fotografia, até mesmo pela maior comodidade do modelo (e do artista).

Considerando que utilizo bastante a fotografia para orientar o meu trabalho (ainda que dificilmente eu siga exatamente a mesma composição da imagem utilizada, funcionando muito mais como um quebra cabeças que eu vou montando as partes depois), acredito que meu trabalho possa ser rotulado como fotorrealista (meio genérico, é bem verdade), mesmo que eu não tenha como objetivo criar em pintura ou desenho a mesma ilusão de fidelidade da fotografia, como os artistas desta vertente normalmente fazem. Mas com o tempo, vamos pegando o jeito.


  Licença Creative Commons
"Olhar" de Eduardo Cambuí Junior está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional.

4 comentários:

  1. E aí, meu caro amigo, Edu, tudo na mais perfeita desordem?
    Como sempre, suas obras e seus textos me rendem algumas ótimas viagens.
    Não sei se você conhece a expressão inglesa "train of thoughts", que é aquela cadeia de pensamentos do tipo "uma coisa leva à outra"; bem, encadeei pensamentos e acabei me lembrando de um filme chamado "I Origins" (em português "O Universo no Olhar", mais uma daquelas traduções bizarras, mesmo que o jogo de palavras do título seja praticamente impossível de se traduzir ao pé da letra... mas, vamos lá!). O filme é uma ficção científica com ares realísticos, com uma trama surpreendente, que nos leva a caminhos inesperadamente espirituais, em vez de puramente científico. Não vou contar mais nada, para não estragar, mas acho que você vai pirar com esse filme, maluco! rsrsrsrs Bem, se é que você já não o assistiu...

    Outra coisa: como você bem disse no texto, suas obras têm esse apelo mais chegado ao realismo, ao menos é o que mais vejo aqui no seu blog, mas imagino que você não se restringe a isso e que costuma visitar outros gêneros e estilos; então, fica a curiosidade de ver esses seus outros caminhos.
    Outro artista, grande e querida figura, o Sr. do Vale, trabalha justamente com esse lado mais abstrato, surreal, com pinturas digitais que você pode conferir no blog dele, o Partículas do Sentido ( http://particulasdosentido.blogspot.com/ ), mesmo que o blog esteja meio abandonado nos últimos anos.
    Fico imaginando que se vocês trocassem seus papéis, certamente nos brindariam com algo extremamente interessante.

    Bem por enquanto é só, pessoa...
    Saudade de nossos papos doidos, mizifio!
    Grande abraço!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E aí, Carmelito!!!

      Poxa cara... com certeza vou procurar esse filme. Tô sempre em busca de bons filmes também! Inclusive me fez lembrar de um outro filme chamado "A viagem" (Cloud Atlas) que tem também uma boa dose de ficção científica (na verdade, são várias histórias simultâneas de várias épocas diferentes) e que tem um enredo bastante denso que parte pra esse lado espiritual também, além de ser recheado de bons atores (Tom Hanks, por exemplo). Se não viu, veja!

      Realmente, minha praia é o realismo figurativo e é onde me sinto a vontade, mas vez por outra eu acabo partindo pra outros campos... depende na verdade da vontade (ou necessidade) que bate na hora. Tem alguns trabalhos que já publiquei aqui, inclusive, como "Nirvana", "Xaxim", "o homem invisível" e "mulher cubista", só pra citar alguns. Depois dê uma olhada aqui. Mas tenho um trabalho novo que fiz no fim do ano passado e que logo logo eu jogo por aqui. Aguarde cenas dos próximos capítulos! E sobre o Sr do Vale, conheço ele desde a época que você tinha o Carmelo Café. Assim como adotei o Carmelito pra você, ele acabou virando o Mister pra mim! Realmente, o blog dele tá há um tempinho parado, mas essa coisa de blogar é assim... tem épocas que bate uma onda de marasmo mesmo, mas tomara que ele volte à ativa logo.

      Pois é, meu caro! Apareça mais vezes!
      FaloU!

      Excluir
  2. Oi Edu, bom te ver por aqui novamente! Pois é, os blogueiros andam mesmo afastados, já faz um bom tempo. Acho que uma grande parte deles migrou para o face, para os smartphones, para os passatempos mais rápidos...! Não sei se é o teu caso, porque sempre nos trazes um bom trabalho, como este, também. Quanto a mim, continuo postando, "devagar e sempre" !

    Um beijão

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Ci! Pois é... de vez em quando eu coloco alguma coisa aqui, ainda que eu tenha passado uma temporada sem colocar nada, mas pretendo retomar o ritmo de antes. Os nossos colegas da blogosfera realmente andam meio devagar e agora que você comentou que eu fui me dar conta que eles devem mesmo estar utilizando mais as redes sociais. Não gosto muito do Facebook (tanto que nem tenho perfil lá), mas tenho explorado bastante o Instagram e o Ello, que é uma rede social nova que tem se mostrado bastante interessante. Mas o Arte por Parte vai seguir na mesma fórmula que a sua: devagar e sempre!
      Bjão!

      Excluir

Seu comentário será sempre bem-vindo. Assim que for possível, eu retorno!