terça-feira, 31 de março de 2015

- Homem de Lata -

Lápis Dermatográfico - 20 x 30 cm - 2015
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Quem acompanha o Arte por Parte ou é mais próximo a mim, sabe que 2014 foi um ano bem complicado. O falecimento repentino da minha esposa e um filho pequeno pra criar foram situações que me fizeram reavaliar muitas coisas e naturalmente me obrigou a me adaptar a esta nova realidade, ajudado também pelo velho remédio chamado "tempo" que vai se encarregando de recolocar tudo nos eixos aos poucos. O desenho de hoje foi escolhido porque, de certa forma, acho que ilustra um pouco do que se passava comigo (e ainda se passa um pouco), sob o aspecto emocional, desde o momento do acontecido (o vazio do homem de lata), além de ser também um personagem marcante de um dos maiores clássicos do cinema, "O Mágico de Oz".

O Processo Artístico

Já fazia algum tempo que eu vinha planejando produzir mais, estabelecer uma cota anual de trabalhos para que assim fosse criado também um bom acervo disponível, considerando que uma parte considerável dos meus trabalhos já foram vendidos e não estão mais comigo. No ano passado comecei a esboçar esta retomada com a exposição "Arte de Perto" em parceria com o artista Geraldo Bope, mas poucos dias depois do encerramento desta exposição aconteceu o acidente com minha esposa e aí os meus planos foram adiados. Aos poucos eu venho retomando esta ideia e uma das formas que eu achei para voltar ao ritmo é começar a fazer desenhos de retratos.

O desenho de retratos é algo que exige muito dos artistas porque qualquer milímetro colocado do lado errado no desenho faz muita diferença, afinal, não há um único dia na nossa vida que ficamos sem ver um rosto qualquer (mesmo que este rosto seja o nosso próprio refletido no espelho). Com tamanho costume em ver rostos, nossa sensibilidade para as proporções adequadas é naturalmente imensa. Porém, fazer desenhos de retratos exigem prática e quanto mais se pratica, melhor fica o nosso desempenho. Decidi fazer então uma série de retratos de personalidades clássicas do cinema, que aos poucos vou postando por aqui.

Desde que a ideia surgiu na mente, o princípio básico era evitar fazer a arte final destes retratos da forma tradicional, em grafite, mas utilizando um outro material. Escolhi então o lápis dermatográfico, que dá a opção de mais textura. Acredito que um desenho feito com mais textura consegue alcançar mais expressividade, o contraste também ganha mais possibilidades e faz bem menos sujeira que o grafite. O papel canson, de uma gramatura maior, ajudou também a evidenciar a textura que o lápis consegue alcançar.

O Material

O material escolhido para este desenho foi o lápis dermatográfico, que além de possibilitar mais contraste, dá ao desenho mais textura, como foi citado acima. Sua composição é basicamente de pigmento e cera. Ao contrário do que o nome sugere, não é daqueles mesmos lápis que as mulheres usam em maquiagem... estes são utilizados na linha industrial para marcação em vidro, plástico e metal, mas também podem ser usados na pele. São conhecidos também como "lápis vitrográfico". Um dos grandes diferenciais do lápis dermatográfico é que ele não precisa ser apontado (pelo menos os da marca Mitsubishi, que por coincidência foi a única que usei até hoje). Eles tem na ponta um pequeno cordão que, quando puxado, descasca o papel comprimido que envolve o conteúdo, que depois é apenas desenrolado.

Um dos grandes problemas deste material era a dificuldade para encontrar o produto no mercado. Depois de muitos anos procurando e não encontrando nas lojas do ramo, achei por acaso numa loja de produtos destinados à fisioterapia, depois de descobrir que os fisioterapeutas também utilizam este lápis para marcação na pele dos pacientes para alguns procedimentos. Hoje, com a grande oferta de lojas atendendo também pela internet, ficou bem menos complicado de adquirir o produto do que era antes. Para quem desenha e nunca experimentou este lápis, eu recomendo... é muito gostoso de usar.

Referência

O filme "O Mágico de Oz" é um clássico do cinema que, apesar de ter sido filmado entre 1938 e 1939, ainda hoje mantém a mesma aura de magia. Baseado nos contos de L. Frank Baum (o primeiro livro foi publicado em 1900), este filme é uma verdadeira aula de como fazer cinema. Porém, o filme passou por diversos problemas durante sua produção. Teve diretores que foram substituídos até Victor Fleming chegar para arrumar a casa e concluir o filme. O personagem retratado de hoje, que no livro se chama Tin Woodsman, encarnado na pele do ator Jack Haley, quase foi interpretado por outro ator, Buddy Ebsen. Ebsen chegou a filmar algumas cenas, mas teve uma grave reação alérgica ao pó metálico da maquiagem do personagem. Com seu grave estado de saúde, Haley foi chamado para o papel, e logicamente, o processo de maquiagem foi trocado para uma pasta, que se mostrou muito mais segura.

A Obra

Pelas características do material, ajudado também pela textura do papel, o resultado ficou muito bom e atendeu exatamente o que eu pretendia desde o início. Apesar da dificuldade para fazer os pequenos detalhes com o lápis dermatográfico, que exigem um pouco de paciência, o desenho ficou muito bom. Por se tratar do homem de lata, decidi que o melhor era deixar o desenho apenas em preto e branco, o que eu acho que foi uma decisão acertada. Talvez nos próximos retratos eu alterne entre giz pastel e lápis dermatográfico, mas provavelmente a maioria serão feitos mesmo com este tipo de lápis.



Licença Creative Commons
"Homem de Lata" de Eduardo Cambuí Junior está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional.

2 comentários:

  1. Querido amigo Edu,
    fiquei tanto tempo sem aparecer por aqui que acabei me afogando em suas postagens! rsrsrsrs Tanta coisa pra dizer... Vou tentar.

    Primeiro é que eu morreria sem saber que esse lápis, velho conhecido meu, tem esse nome ultra pomposo, daquele tipo que falamos escandindo as sílabas DER.MA-TO-GRÁ-FI-CO!! SEN-SA-CI-O-NAAAAAAALLLLLL!!!!!! rsrsrsrsrs Já usei muito pra fazer marcas em madeira para trabalhos diversos e minha mulher também costuma usá-lo no trabalho dela. Aliás, nós o chamamos de "lápis da cordinha"... rsrsrs

    Outra coisa é que você também pode acrescentar aos seus dotes de artista o título de escritor, afinal seus textos invariavelmente são inspirados e escritos de uma maneira que até parece que estamos conversando, divertidamente, e, ainda assim, nos enche de belas informações valiosas. A aula que você nos deu na postagem "Natureza morta com frutas e um observador" está entre meus preferidos, não só do seu blog.

    Agora, entre outras tantas, eu não poderia deixar de me solidarizar a você, meu caro, devido à sua perda. Te digo que passei pela mesma situação há pouco mais de dez anos e foi muito, muito difícil superar, mas superei, recomecei e afinal acabei descobrindo que temos mais de uma alma gêmea; e, sim, o TEMPO, esse "senhor tão bonito... ...compositor de destinos, tambor de todos os ritmos" faz com que as coisas se encaixem em seu devido.. tempo. Portanto, meu irmão, como dizem "força na peruca'!! rsrsrs

    Eu até gostaria de escrever mais, assunto é o que não falta, mas ainda tenho tanto pra explorar por aqui...

    Aquele abraço!!
    Valeu!!

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    1. E aí, Marcelo "carmelito"!! Isso é que é um comentário caprichado!! (:D). Pois é... o tal do lápis é bom mesmo, mas é conhecido também por outro nome igualmente cheio de lero-lero, que é "vitrográfico". Sobre a forma de escrever, a ideia é justamente essa mesmo... que se pareça com uma conversa. Pelo jeito tá dando certo! Sobre o que aconteceu comigo, obrigado pelas palavras e infelizmente, é uma coisa que cedo ou tarde vamos todos encarar na vida. Realmente o tempo dá jeito em tudo! Mas é isso! Valeu, meu caro... apareça mais vezes!

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