quarta-feira, 13 de julho de 2016

- De Novo e de Novo -

Caneta nanquim - 14,8 x 21,0 cm (tamanho A5) - 2016
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Quem visita regularmente o Arte por Parte já sabe que grande parte do meu trabalho flerta bastante com o realismo, retratando cenas do cotidiano na maior parte delas. Eu até busco me forçar a sair um pouco desta característica utilizando materiais ou recursos que dificultam mais o detalhamento, como por exemplo, alguns tipos de giz ou uma paleta de cores restrita. O trabalho de hoje é uma escapada deste território, um passeio por um campo mais surrealista, onde a imaginação é o grande condutor da imagem.

O processo artístico

Nos últimos tempos, como está um pouco complicado para pintar telas como geralmente eu fazia por uma série de fatores (geralmente pela falta de tempo de me dedicar com afinco), então eu busco outras formas de produzir e uma delas é o desenho, que tenho feito muito nos últimos tempos, o que acaba se tornando também um ótimo laboratório onde eu experimento ideias que podem me servir depois para uma futura pintura e em alguns trabalhos, até mesmo servir como um amadurecimento artístico.

Inclusive, é interessante falar sobre isto porque me faz lembrar como muitas técnicas e artes diferentes estão interligadas e se complementam, muito mais do que supomos no momento em que as observamos. Explicando melhor, no momento que estamos diante de uma imagem (seja desenho ou pintura), estamos observando apenas a imagem crua e ela, por si só, eventualmente pode encontrar algumas dificuldades em passar uma mensagem. Algumas vezes a imagem pode necessitar da palavra para guiar o raciocínio, como também ela pode ter surgido a partir de um texto, conto, música, ópera, filme, peça teatral ou mesmo uma fotografia. Ocasionalmente, pode até precisar de uma outra vertente artística para ser melhor compreendida. Estou falando tudo isto porque muitas coisas me motivaram para a produção deste desenho... textos, músicas e a minha própria rotina, que é a ideia básica deste desenho: retratar o tédio da rotina, tão comum no cotidiano de cidades pequenas do interior do país, onde as opções de lazer são mínimas (quando existem).

O grande propósito que todo artista visual figurativo ambiciona encontrar sempre é uma forma de contar uma história em apenas uma cena estática. Os grandes artistas são aqueles que conseguem contar muito bem estas histórias, adicionando complexidades, nuances, entre outras coisas. Não é algo muito simples de se alcançar e que na verdade, pouca gente se dá conta dessa dificuldade, ainda que seja algo óbvio. Para isto, exploramos expressões, linguagem corporal, simbologias e tudo mais que possa ajudar na interpretação da imagem.

Referências

A primeira coisa que me veio na mente quando parei para pensar numa imagem que pudesse retratar uma rotina solitária e repetitiva não foi o trabalho de nenhum pintor ou ilustrador reconhecido, como normalmente acontece, mas uma cena de um filme super cult: "2001 - Uma Odisseia no Espaço". Pra quem nunca teve a curiosidade de assistir, o início do filme faz uma relação fantástica entre os tempos, mostrando o homem nos seus mais longínquos primórdios, meio homem e meio macaco, buscando meios para sobreviver melhor às inúmeras dificuldades que surgiam e em seguida, após um corte abrupto somos levados para uma cena espacial, um salto superlativo no tempo. A cena em questão que me inspirou para o desenho de hoje é a de um astronauta se exercitando na Estação Internacional, correndo pela gravidade controlada do seu ambiente, quase como um hamster que corre em sua gaiola, não vendo nada além do que ele vê sempre.

Eu praticamente cresci vendo este filme, mas só gostava do início que mostrava o homem-macaco. O resto eu sempre achei muito chato e sem sentido, ainda que mesmo no início tivesse uma parte ou outra meio estranha de entender. Mas graças ao espírito curioso que sempre tive, com o passar do tempo fui revisitando este filme para ver se encontrava algo que não tinha percebido antes, afinal, o nosso entendimento de uma obra vai mudando com o tempo. Não entrava na minha cabeça o motivo deste filme ser tão cultuado, além das questões técnicas óbvias como fazer um filme tão realista sobre a exploração espacial numa época em que o homem nem tinha chegado na Lua ainda. Como resultado, passei por várias tentativas dormindo na parte espacial.

Mas este filme, que eu começava a julgar como um lixo cult, mudou drasticamente no meu conceito quando vi acidentalmente a sua sequência (2010 - o ano em que faremos contato). A partir do "2010", o "2001" passou a ser genial e fez todo o sentido, entendi as partes que achei viajante demais e passei a gostar muito dele. Ao meu ver, os filmes coloridos do Stanley Kubrick se portam como grandes pinturas animadas... as expressões dos personagens são muito exploradas e algumas vezes, até exageradas. Uma das características que mais me chama a atenção são as cores usadas, com muitos tons contrastantes que fazem com que nossos olhos fiquem colados na tela com estes "efeitos" visuais. Os filmes de Pedro Almodóvar também tem essa peculiaridade.

Nunca é demais lembrar que este filme foi baseado no livro homônimo de Arthur C. Clarke, assim como também o "2010 - O Ano Em Que Faremos Contato", segundo livro desta sequência. Além destes, fazem parte da saga o "2061 - Odisseia três" e "3001 - A odisseia final". De tempos em tempos surge algum boato em Hollywood de que estes livros serão adaptados para o cinema, mas nunca vingam. Talvez em breve isto se torne possível, já que a capacidade técnica em efeitos especiais são muito mais amplos hoje e praticamente qualquer coisa é possível de se recriar nas telas.

A Obra

Este desenho, que começou muito despretensioso, foi criando corpo enquanto eu estava produzindo. Ao mesmo tempo que procurei desenhar uma imagem pelos olhos de alguém de fora daquele plano, vendo a paisagem que inevitavelmente se repetirá no horizonte do personagem, tentei me colocar também no lugar do personagem, imaginando ver o que ele via. Algumas simbologias foram necessárias para mostrar um clima entendiante, como as árvores secas que compõe a paisagem, como num clima de inverno rígido como numa analogia de aridez de opções, mas ao mesmo tempo deixando visualmente bem atrativo. Essa preocupação em tornar o ambiente visualmente agradável foi também uma forma de mostrar um ponto de vista que tenho: algumas vezes a rotina não depende tanto do lugar, mas do tempo que você passa neste lugar... é bem provável que até uma pessoa que vive num típico paraíso fique incomodada com o tédio da rotina em algum momento, o que pode ser impensável para outras tantas pessoas que não vivem lá.

No final das contas, me agradou bastante o resultado... sem querer, acabou ganhando até uma aparência de mandala. Acredito que a mensagem de rotina ficou bem clara, até mesmo pela expressão marcante do personagem que ajuda a evidenciar esta proposta.

Imagens: Google



Licença Creative Commons
"De novo e de novo" de Eduardo Cambuí Junior está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://www.arteporparte.com/p/contato.html.

2 comentários:

  1. Oi Edu, por onde tens andado? Passei por aqui pra desejar-te um 2017 com muita Arte, muitas Alegrias e algumas realizações! Apesar de tudo e de todos...!

    Um beijão

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    1. Oi Ci! Realmente tenho estado meio relapso com o Arte Por Parte, mas já estou me mexendo para colocar coisa nova por aqui muito em breve. Falou!

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