quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

- Paz de Espírito -

Acrílico sobre tela - 30 x 40 cm - 2019
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De tempos em tempos, aparece alguém me procurando, me perguntando se eu aceito pegar encomendas de pinturas sobre um determinado tema ou uma cena específica. É algo que depende muito da situação, mas não é algo que eu costumo pegar com frequência por uma série de razões que vou detalhar melhor mais adiante, mas às vezes eu pego, dependendo muito do que se trata a pintura, do potencial de expressividade que ela possui, se tem como deixar a minha "marca", entre outros detalhes. A pintura de hoje (também já publicada no Instagram) é um destes poucos casos de pintura sob encomenda que aceitei e que acabou se tornando um desafio bem interessante de se explorar… e acabou culminando num resultado muito agradável!

O processo artístico

Durante a produção de "Elis Regina", peça
que compôs o projeto "Ícones da Música"
A minha relação com a venda e a encomenda de arte é um tanto conflituosa. É claro que na realidade capitalista em que vivemos, ter e gerar dinheiro faz muita diferença para uma melhor qualidade de vida e que, infelizmente, por consequência também gera muitas situações que são, no mínimo, injustas e desiguais… mas tratar disto aqui tomaria muito tempo e também não é o ponto central do nosso assunto neste momento. Voltando ao tema, a minha resistência em aceitar encomendas vem da experiência de saber que a maior parte das vezes, o tipo de encomenda que aparece é quase sempre para reproduzir coisas (fotos, pinturas antigas, pinturas de outros artistas, etc) e não há muita motivação nisso… eu não sou uma máquina copiadora viva. Fora que, a partir do momento que você se propõe a fazer e passa a ser conhecido por isso, não sobra mais tempo para fazer nada além disso, mesmo que haja o dinheiro que paga pelo trabalho. O dinheiro não é (e nem deve ser) um fim único para fazer qualquer coisa.

Mas enfim, a ideia da encomenda chegou para mim praticamente de dentro de casa e difícil de recusar. Surgiu como um pedido da minha namorada como um presente para o irmão dela e da cunhada que mora em Vancouver, no Canadá. No começo, na hora de ver como seria, ela me mostrou algumas fotos deles em locais de apelo turístico… naturalmente não é algo que faz o meu estilo, mas uma foto em especial chamou a minha atenção, talvez porque tinha alguma relação com o meu estilo de pintura e mesmo que eu tivesse que seguir uma foto, considerei que ainda assim era possível acrescentar mais expressividade do que meramente fazer uma reprodução de imagem.

Vista do Rainbow Park em Whistler, Canadá
O local é o Rainbow Park, que fica em Whistler, cidade ao norte de Vancouver, na Columbia Britânica, e tem uma natureza exuberante pelo que pude ver pelas fotos (infelizmente não conheço pessoalmente), ainda mais se for levado em conta que tem uma das maiores estações de esqui da América do Norte. A sensação que pude perceber do clima da foto, do ambiente, me transmitiu muita tranquilidade e daí veio a linha guia para o que eu deveria explorar no trabalho (ou tentar). Passar essa paz de espírito, tanto dos personagens quanto do ambiente.

Alguns detalhes da imagem também deixaram bem claro que este trabalho iria exigir muita paciência, principalmente na hora de fazer o gramado coberto com as folhas caídas das árvores, as próprias árvores com os galhos secos pelo efeito do outono, das montanhas geladas no horizonte, do lago com suas construções na margem oposta, enfim, muitos detalhes exigindo atenção. Tinha também o fator das cores que era preciso dar bastante atenção… era preciso dar cores, mas ao mesmo tempo, ter cuidado para não contaminar a sensação de frio do ambiente. Se eu me empolgasse em determinadas cores, eu poderia acabar deixando o ambiente com uma sensação de ser quente.

Referências

Caspar David Friedrich - "Os
Penhascos de Rügen"
Nesta tela, até por eu estar seguindo uma foto, não teve uma referência específica que influenciou a seguir um determinado estilo. Mas não deixei de me lembrar de alguns artistas durante o processo, como Seurat no momento em que eu estava fazendo as folhas caídas no gramado, mas principalmente, lembrar de Caspar David Friedrich, pintor alemão do período do romantismo que tem em sua obra a marca de ter belíssimas paisagens, muitas vezes com os personagens contemplando ou envoltos pela grandeza da natureza. É quase como se fossem figurantes numa cena em que a paisagem é quem realmente protagoniza. Seu nome está entre os maiores pintores de paisagem do período.

Caspar David Friedrich - "Andarilho
sobre o mar de nevoeiro"
Mas suas paisagens não eram apenas o que parecia ser. Tinha um caráter meio espiritual nelas e o ar contemplativo dos personagens dizem muito sobre o próprio artista, que passou por diversas tragédias, com a perda da mãe e irmã em sua infância e com a morte traumática de seu irmão quando ele tinha apenas 13 anos. Friedrich caiu num buraco no gelo e seu irmão, tentando salvá-lo, acabou morrendo afogado no resgate. Nas pinturas de Friedrich, a natureza atua como um clímax dramático. Mas logicamente, é apenas uma referência da história da arte que tem uma leve semelhança com a cena, mas o sentido da arte deste post é completamente diferente, ainda que eu sempre busque expressar além da reprodução de um local, também quando utilizo paisagens.

A Obra

Mesmo com tantos detalhes, várias camadas de cores sobrepostas, muitos detalhes e efeitos pequenos em todo canto da tela, a pintura foi produzida relativamente rápido. Não me lembro ao certo quanto tempo levou para ser concluída, mas foi algo em torno de 10 dias de produção, com muitos intervalos. Nestas cenas em que há muita paisagem, eu costumo pintar o cenário como se eu estivesse montando o ambiente. Pintei o céu inteiro, as montanhas, o lago, os detalhes nos elementos na margem do lago, para só depois pintar as árvores e seus galhos.

No gramado foi mais ou menos da mesma forma. Pintei primeiro a terra num tom bem aguado (para não contaminar na cor da grama), carregando mais na base das árvores, para depois fazer a vegetação e no final, fazer as folhas caídas, com o cuidado de ir reduzindo o tamanho das folhas conforme ficam mais longe para criar um bom efeito de profundidade. Eu tinha comentado sobre Caspar David Friedrich acima e que a referência acabou sendo mais pela leve semelhança da cena, mas o processo acabou lembrando ainda mais, já que os personagens foram os que menos deram trabalho de compor na pintura. A paisagem tomou muito mais tempo, sem dúvida.

Apesar do tamanho da tela não ser muito grande, foi o mais adequado para o momento, afinal, a tela seria entregue em mãos por um portador e se fosse muito grande, causaria alguns transtornos no embarque. Em muitas pinturas que faço de paisagens, tento passar mensagens não muito óbvias através delas, mas nesta, até por ser uma cena encomendada, não daria muito para enveredar por essa linha. O resultado final da pintura foi muito bom e, pela reação animada dos retratados, acho que foi aprovado e me serviu como uma experiência válida sobre o que focar num trabalho do tipo, caso surja outra encomenda que eu aceite fazer.


Imagens: Google

Licença Creative Commons
"Paz de Espírito" de Eduardo Cambuí Junior está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em https://www.arteporparte.com/p/contato.html.

Um comentário:

  1. Passeando por aqui e babando! rsrs. Ainda bem que você aceitou, ficou incrível e foi um presente muito especial! :D

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