sábado, 1 de fevereiro de 2020

- Sob a sombra de uma árvore -

Acrílico sobre tela - 50 x 70 cm - 2020
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Muitas vezes, alguns dos meus desenhos são produzidos de uma forma meio solta, sem grandes perspectivas e depois de prontos, para a minha surpresa, acabam saindo melhores do que era imaginado inicialmente. Em outros casos, são feitos deliberadamente como uma espécie de esboço mais elaborado para que sirva como um laboratório, um tipo de test-drive para uma futura arte, melhor planejada e produzida, como foi esta (também publicada no Instagram).

No caso da publicação da arte de hoje, que começou primeiro em 2015 com o desenho em giz pastel oleoso nomeado como “Cena de Macaúbas”, a produção deste trabalho foi meramente um exercício sem grandes pretensões, mas que teve um resultado que superou as expectativas quando ficou pronto, o que me fez considerar a possibilidade de refazer este trabalho em tela, maior, com mais capricho e, logicamente, com algumas pequenas diferenças de um para outro.

O processo artístico

Ultimamente, tenho revisitado alguns dos meus trabalhos feitos em materiais mais simples, como lápis de cor, giz pastel e grafite, entre outros, e buscado refazê-los em tamanho maior, com um pouco mais de capricho e naturalmente, produzindo com algumas pequenas alterações que acabam dando uma nova “personalidade” e algumas vezes, até com uma mensagem nova no trabalho (em relação ao anterior).

Andy Warhols no processo de Silk Screen
Na verdade, é praticamente impossível refazer o mesmo trabalho igual ao anterior sem contar com nenhum recurso externo para auxiliar, como acontecia, por exemplo, com os trabalhos de Andy Warhol, que eram feitos em série com o silk-screen onde ele fazia a variação de cores em alguns, simplificando bem o processo artístico dele. No processo artístico tradicional, feito à mão, artesanalmente, sempre vai haver alguma diferença, para melhor ou para pior. De qualquer forma, tampouco eu acredito que seja interessante fazer isso... é sempre melhor pensar no caráter único e individual de cada trabalho, o que acredito que também agregue valor (não apenas de caráter financeiro).

O que me fez escolher esta imagem para a produção deste trabalho é o potencial que esta paisagem específica possui de transportar o espectador para dentro da cena, de um modo meio universal, independente da pessoa conhecer o lugar ou não, que é algo que eu tento sempre alcançar com os meus trabalhos. Busquei pensar bastante o processo de luminosidade do céu antes de pintá-lo, observar muito o ambiente local para tentar alcançar algo bem próximo do efeito real.

No meu ponto de vista, logicamente, é essencial que a arte que cada um produza diga algo, tenha uma mensagem, mesmo que esta seja para nós mesmos. Uma arte meramente ilustrativa não passa de um copo vazio, inofensivo e sem função. É claro que ter uma mensagem não significa, essencialmente, que esta mensagem precise ser um divisor de águas em quem observa e nem que precise ser também algo que grite, incomode, tire do lugar. Pode ser algo que transmita uma sensação boa, um estado de espírito também, que foi mais ou menos a intenção que eu pretendia quando fiz esta tela. Mas é o cenário dos sonhos quando tudo isto que foi citado acima acontece ao mesmo tempo em quem observa!

"Cena de Macaúbas" (2015)
Na arte de 2015, que acabou servindo de esboço para esta, o giz pastel foi o material adequado para o que eu pretendia naquele momento, porque geralmente é feito rápido, sem muitos detalhes e com cores vibrantes. Desta vez, fazendo com a tinta acrílica, a ideia já muda consideravelmente porque há mais possibilidades, o material é bem diferente, ainda que seja possível criar o mesmo efeito… mas a proposta aqui não era a mesma.

Referências

Edgard Degas -
Autorretrato
Em “Cena de Macaúbas”, até por ter utilizado o giz pastel e pela forma como fiz a arte, a referência imediata era o pintor francês Edgard Degas, que faz parte do meu rol de influências, como já disse por aqui diversas vezes. Mas para esta pintura, apesar de ser quase a mesma cena, a coisa já mudou bastante… quando se fala de paisagens, minha referência imediata é a de Joseph William Turner por ser um artista fantástico quando se fala de luminosidade, que consegue passar diversas mensagens através da paisagem, mas o estilo de pintura dele não é, infelizmente, muito próximo ao meu estilo (obviamente, aqui guardadas as proporções intergalácticas do meu trabalho para o dele). Para esta pintura, acho que busquei mais o estilo de um contemporâneo dele, o também inglês John Constable.

Ramsay Reinagle - Retrato
de John Constable
De fato, Constable foi colega de Turner na Real Academia, mas a carreira de cada um tomou rumos bem diferentes. Enquanto Turner, que era um ano mais velho, teve um sucesso meteórico e conseguiu ser membro vitalício da academia com apenas 26 anos, Constable nunca teve vida muito fácil como artista. Vendeu apenas 20 obras em seu país natal e seu trabalho não era bem aceito pelos conservadores da época (as paisagens não eram consideradas como uma obra maior) e só conseguiu ser aceito como membro vitalício da academia aos 52 anos (notícia que ele recebeu por Turner). Só alcançou o gosto da glória aos 60 anos quando foi premiado com a medalha de ouro no Salão de Paris, mas faleceu um ano depois, recluso e praticamente esquecido pelos seus compatriotas.

John Constable - A Carroça de Feno
Falar de vidas como a de John Constable inevitavelmente nos faz pensar sobre as coisas do mundo da arte, as injustiças que acontecem e quando o reconhecimento vem através do mérito ou apenas do bom relacionamento do artista. Infelizmente esta é uma pergunta sem uma resposta simples. Outro nome que é fácil relacionar com essa reflexão acima é a de Henri Rousseau, conhecido por seus pares como o inspetor da alfândega (Le Douanier, em francês), que era a sua profissão. Tratado como piada em seu tempo, só começou a pintar seriamente aos 40 anos, adotando como tema principal o exotismo da fauna e flora que ele nunca viu pessoalmente (já que nunca saiu da França), mas que conhecia através de visitas ao Museu de História Natural. Só conquistou a admiração de seus colegas artistas nos últimos 3 anos de vida e da opinião pública, a poucos dias de sua morte, quando sua popularidade começou a crescer e não parou mais.
Henri Rousseau e sua famosa tela "O Sonho"

A Obra

Apesar de se utilizar da mesma cena do esboço, eu acredito que o resultado desta arte acabou ganhando um caráter completamente diferente. Só o fato de ter acrescentado uma figura sentada sob a árvore (ainda que muito pequena e discreta) na cena desta paisagem, já foi inserido todo um contexto bem amplo na arte. Além da sensação de paz e quietude que a arte transmite, acredito que há também uma reflexão inserida em como somos pequenos diante da grandeza do mundo que nos cerca, da natureza como um todo. Não passamos de meras formigas.

A luminosidade que consegui passar nesta cena também foi um ponto bem interessante e que foi fruto de muita observação e experiências com a inserção de mais cores. Deixou o céu mais brilhante e mais próximo do real. A produção do campo também foi um caso à parte... para dar uma sensação mais próxima do real, primeiro fiz uma camada com tons terrosos, para só depois vir com um tom mais claro de verde para a vegetação mais nova e, mais tarde, com um tom de verde mais escuro para a vegetação mais madura do campo aberto e um tom ainda mais escuro para os arbustos.

Provavelmente virão ainda neste ano mais trabalhos em tela com esta perspectiva de evolução sobre uma arte já produzida, como já saíram algumas nos últimos tempos e que devem figurar por aqui em breve. Esta em particular me trouxe boas ideias de como, usando o mesmo motivo e perspectiva de cena, é possível mudar consideravelmente o foco de um trabalho.


Imagens: Google


Licença Creative Commons
"Sob a sombra de uma árvore" de Eduardo Cambuí Junior está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em https://www.arteporparte.com/p/contato.html.

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