sexta-feira, 15 de setembro de 2017

- Inverno da alma -

Giz pastel oleoso sobre tela - 20 x 30 cm - 2017
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Depois de um longo tempo sem postar novidades por aqui, resolvi que já era hora de tirar a poeira do teclado e voltar a alimentar o Arte por Parte. A pintura de hoje é fruto de algumas experiências que resolvi fazer recentemente utilizando o giz pastel oleoso sobre tela, já que até então os meus trabalhos em giz pastel oleoso tinham sido feitos apenas em papel. A pintura, apesar de se tratar de uma paisagem (que infelizmente eu ainda não conheço pessoalmente), tem muito a dizer e inclusive tem sido algo que eu tenho trabalhado bastante de uns tempos pra cá, que é usar paisagens como mais uma forma de expressão, que convenhamos, deve ser o princípio básico da arte de todo artista.

O processo artístico

Trabalhar com o giz pastel oleoso é uma atividade muito prazerosa, pois suas cores são vibrantes, os trabalhos mantém essa característica por muito tempo (desde que o artista tenha o mínimo de cuidado ao guardar e manusear a obra) e, apesar do lado negativo que é a sujeira que ele causa nas mãos (o que nos obriga a lavar as mãos com mais frequência que o normal durante o trabalho), o material nos dá grandes possibilidades de tornar o produto final muito expressivo.

Edgar Degas - "Banhista sentada se secando"
Ao contrário do que acontece com o giz pastel seco (que geralmente é vendido por um preço bem caro), o pastel oleoso tem preço acessível e tem uma grande variedade de marcas que produzem, oferecidos em formatos que podem variar desde o mais simples, num estojo contendo 12 cores, aos mais completos, com 49 cores. Acho que já tinha comentado aqui antes sobre o giz pastel oleoso... por causa do tamanho de cada giz, trabalhos feitos com ele geralmente não servem muito bem para artes muito detalhadas (exceto nos trabalhos de grandes dimensões), o que é ótimo, porque desta forma você consegue ver a textura do material de perto. Antigamente era possível, por exemplo, encontrar alguns estojos da marca Pentel com giz num tamanho grande (na verdade, era mais grosso), mas parece que hoje o padrão tem sido mesmo encontrar no tamanho regular (um pouco mais fino). Os trabalhos do grande mestre francês Edgar Degas, reconhecido por usar o pastel, é um ótimo exemplo dos efeitos na utilização do material.

Giz pastel oleoso de diferentes marcas
Para este trabalho, especificamente, o maior diferencial seria mesmo em como utilizar o material na tela, se haveria muitas diferenças, etc. Na verdade, é praticamente a mesma coisa de utilizar no papel. Naturalmente, é preciso prestar atenção na textura da tela, dando preferência para as bases mais finas, que são mais lisas. O maior diferencial acaba sendo a "obrigatoriedade" em envernizar o trabalho ao final, pra evitar a sujeira que pode ocorrer ao manusear a tela. Neste caso, o mais indicado é utilizar o verniz em spray.

Referências

Há algum tempo atrás, uma prima minha que mora na Philadelphia me mandou uma foto de um lugar próximo a casa dela sugerindo que poderia ser uma bela inspiração para uma pintura e realmente ela tinha toda razão. Guardei a foto e deixei pra quando surgisse uma boa oportunidade pra fazê-la, dando tempo pra que eu pudesse refletir melhor sobre como fazer, que material escolher, dar algum sentido maior a cena ao invés de apenas copiá-la, puramente.

E como já havia comentado no início deste post, tenho prestado mais atenção em como fazer com que cenas de paisagens se expressem de forma similar a pinturas com personagens, algo que é perfeitamente possível. Para conseguir isto, buscamos logicamente um local específico (no meu caso, tiro fotos dos lugares que eu acho que podem servir futuramente) ou elementos da natureza isolados que sirvam como referência para compor a cena, dar mais dramaticidade e compor a atmosfera da cena. Naturalmente, quando falamos coisas deste tipo, o primeiro nome que surge na mente é o de Sir William Turner, o grande mestre da paisagem.

Turner - Iate a aproximar-se da costa
De origem humilde (filho de um barbeiro) conquistou o status de gênio entre seus pares através das suas pinturas (mais de 300 telas pintadas) e das inúmeras aquarelas (20 mil, segundo seus biógrafos), exercendo grande influência na pintura européia e se tornando um precursor do impressionismo. Dono de uma excelente memória e ótimo observador, suas pinturas não se limitavam apenas a uma descrição realista do mundo, mas sim, retratar a unidade do efeito da natureza. Um exemplo de sua apurada observação foi a sua descoberta de que o retângulo, normalmente adotado nas telas, nada mais era do que algo convencional, já que, na realidade, a vista humana concentra-se num foco elíptico de atenção, com áreas mais claras ao centro e bordas mais imprecisas quanto a cor e contornos, algo que ele começou a utilizar em sua obra. Naturalmente, quando ele começou a focar mais na luz e na cor do que propriamente no detalhamento, suas obras ficaram mais expressivas (e ao final de sua vida, já estavam se tornando quase abstratas), porém cresceu também as críticas e a reprovação do público da época, que ainda não estava preparado para a revolução artística de Turner.

A Obra

A ideia desta pintura era mostrar que, mesmo num ambiente que foi pensado para ser de recreação, com rede e balanço sob a sombra de uma grande árvore, ainda assim há momentos de aparente esterilidade como a proporcionada pelo inverno gelado que todos os anos chega por lá. Ou seja, o que foi preparado para momentos quentes, de verão, também passa por momentos frios, de inverno, o que é uma ótima analogia para se aplicar a diversas outras situações de nossas vidas. Inclusive, este é um tema perfeito para tratar das questões de temperatura na arte. Geralmente ouvimos dizer que tal pintura é de cor quente, que aquela outra é de cor fria... mas o que isto quer dizer realmente? 

Simplificando bastante, são artes que ao adotar um determinado predomínio de uma gama de cores, estas sugerem ao observador um tipo de sensação (subjetiva, é verdade) ao ser observado. Normalmente em cenas quentes (que geralmente tem o predomínio de vermelhos, amarelos e alaranjados) é causada a sugestão de se tratar de cenas de descontração, alegrias e / ou divertimento, além do evidente calor, ao passo que em cenas frias (normalmente predominadas por azuis, verdes e roxos) já sugerem cenas de tristeza, melancolia e / ou sofrimento, além da óbvia frieza do ambiente. Mas é claro que isto não impede em nada que cenas teoricamente frias também mostrem alegria e cenas teoricamente quentes não passem nada de descontração ao observador. Na verdade, acaba sendo um assunto bem mais complexo, porque tem também os contrastes quente-frio que recriam a impressão espacial ajudando na ilusão de recuo na pintura.

Mas enfim, voltando ao assunto, acredito que foi uma pintura bem sucedida desta que foi uma das minhas experiências com o giz pastel oleoso sobre tela. A cena transmite uma atmosfera de introspecção e pode ser analisada de diversas formas. Talvez eu revisite este mesmo tema no futuro, carregando um pouco mais nos elementos e criando uma ambientação mais expressiva, mas para o propósito que esta experiência foi pensada, acredito que serviu bem.


Imagens: Google



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Inverno da Alma de Eduardo Cambuí Junior está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://www.arteporparte.com/p/contato.html.

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