quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

- Ponto de Vista -

Acrílico sobre tela - 70 x 70 cm - 2021

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No começo de 2020, quando concluí a tela “Sem Rótulos”, que tratava da prática que muitos têm de rotular tudo, não demorou quase nada para vir à minha mente uma outra ideia de pintura e que era uma espécie de variação do tema, também partindo para uma abordagem mais ampla utilizando um objeto comum. Como já comentei por aqui em outras oportunidades, sempre que ideias para pinturas surgem eu escrevo elas da forma mais minuciosa possível para que depois, conforme surja a oportunidade e disposição para isso, eu consiga me lembrar de como a ideia chegou para mim quando anotei. É claro que algumas vezes a ideia se modifica, ideias melhores chegam na mente, mas em alguns casos permanecem da mesma forma. E agora neste fim de ano, finalmente veio a disposição para produzi-la e materializá-la em forma de arte. E afinal, o copo está meio cheio ou meio vazio?

O processo artístico

A ideia primordial por trás dessa pintura é a de provocar no espectador uma interpretação pessoal do que ele está vendo, analisando conforme sua própria perspectiva de mundo, o que é justificado pelo título que dei para a obra. Fiz questão de medir o volume do líquido no copo para que estivesse precisamente na metade dele… teoricamente, haverá algumas pessoas que ao observar a imagem vão interpretar que o copo está meio cheio de líquido (conforme um enfoque otimista), assim como haverá outras pessoas que interpretarão que este mesmo copo está meio vazio, conforme uma visão mais negativa


Fazendo um recorte para o momento atual em que vivemos, globalmente falando, acredito que estamos num período de transição importante, num ponto em que não sabemos ao certo até onde vai o otimismo e até onde vai o pessimismo, que é basicamente o que a arte tenta explicitar através de sua simbologia. E isso passa por diversos campos: de um lado temos uma crescente onda de negacionismo apaixonado mundo afora (os anti-vacina, anti-aquecimento, terraplanistas, etc.), ressuscitando temas que parecem ter sido sepultados há muito tempo, versus os tantos avanços tecnológicos que temos à nossa disposição. Podemos também refletir sobre as próprias facilidades da modernidade tecnológica, internet, inteligência artificial versus a dependência que perigosamente vamos nos submetendo com tudo isso, como manipulações dos algoritmos das redes, fake news, etc. Até em termos de pandemia, hoje não está tão claro se já estamos num pós-pandemia ou se estamos apenas passando por uma fase mais branda, até que as variantes da covid-19 não se apresentem mais graves do que até então. O tema tem um grande potencial de complexidade, que muito provavelmente irá além do que eu posso supor aqui, o que sempre é mais interessante de ver se desdobrando.

Usando a mesma reflexão da arte especialmente para o Brasil, tanto neste momento atual como provavelmente ainda será no decorrer de 2022, é um período ainda mais crítico no que se refere a incerteza de como ver o cenário pelo qual passamos. Temos aqui diversos fatores para contribuir nessa dificuldade em avaliar o cenário… Um governo caótico de extrema direita, em franca campanha política pela reeleição e que definitivamente não trabalha para lidar com os problemas que deveria enfrentar, há também a possibilidade real de uma virada política no horizonte, temos a desigualdade social mais agravada com a crise econômica e que não parece que cederá tão fácil, o histórico forte de adesão às campanhas de vacinação e que, apesar de todos os esforços contrários de uma parcela de poderosos alinhados ao governo, tem índices bem altos de vacinação contra a covid-19, enfim, é um momento de total incerteza do que virá pela frente. No atual momento, a escolha entre otimismo e pessimismo parece ser uma linha bem tênue e o título da pintura parece muito bem adequado a tudo isso.

Referências

Assim como ocorreu na obra “Sem Rótulos”, não há como escapar da referência do neorrealismo que hoje tem diversas vertentes, inclusive de alguns artistas conhecidos meus que atuam nesse ramo. Eu até gosto da ideia de ludibriar o olhar do público, colocando-o em dúvida se a imagem que eles estão observando trata-se de uma foto ou de uma pintura, mas de fato não tenho muita disposição (e paciência) para chegar até este ponto, até porque acho interessante que haja algum rastro na obra que deixe claro que é mesmo uma pintura, o que foi algo que acabei buscando nesta aqui… não buscar tanto a confusão entre foto e pintura. 

Pieter Claesz - "Natureza Morta com
copo de vinho e tigela de prata"
Por se tratar de uma espécie de natureza morta, acabei me lembrando bastante enquanto fazia esta pintura do período que ficou conhecido como idade de ouro holandesa do período barroco e que teve grandes nomes que poderiam muito bem fazer parte hoje do neorrealismo, sem quaisquer dúvidas. Já tinha comentado sobre eles aqui no Arte por Parte anteriormente na pintura “Natureza Morta com Frutas e um Observador”, onde citei o artista Willem Heda, mas o trabalho de um outro artista que me chama muito a atenção é o de Pieter Claesz, artista super virtuoso e que pintava muitos temas do cotidiano, excelente nessa prática de iludir o olhar do observador, sempre usando do simbolismo em suas obras através dos objetos que eram representados. É interessante observar que a Holanda do século XVII (na verdade, a região dos países baixos) por ter uma orientação religiosa protestante, os artistas seguiam o oposto do que orientava a igreja católica, evitando pintar os temas religiosos e/ou mitológicos e desta forma, eles tinham bastante liberdade para retratar paisagens e cenas cotidianas, muito apreciadas pelas pessoas da época, inclusive. 

Frans Post - Visão de Olinda

Aproveitando este assunto para citar uma curiosidade que cabe bem aqui, de certa forma a arte barroca holandesa acabou sendo muito valiosa para o Brasil num determinado período, pois as cenas pintadas pelos artistas Albert Eckhout e Frans Post, que integraram a comitiva de Maurício de Nassau em Pernambuco no que pretendia ser a “Nova Holanda”, produziram artes que são verdadeiros registros históricos de como eram os costumes, as pessoas, as frutas e os lugares do Brasil através de sua arte e tinham como fim realmente retratar como era o Brasil daquela época e suas coisas para os europeus.

A Obra

Assim como aconteceu no momento da produção da tela “Sem Rótulos”, para esta obra eu também tive que montá-la antes de acordo com o que eu tinha imaginado e com elementos da minha própria casa, busquei uma melhor forma de dispor esteticamente os objetos e depois recorri ao uso da fotografia, para usá-la mais tarde como referência para a pintura quando chegasse o momento de fazê-la. 

Como já venho fazendo há algum tempo em algumas pinturas mais minuciosas, nesta eu já trabalhei um pouco melhor no esboço, fazendo o desenho numa folha de papel de mesmo tamanho da tela, para que desta forma, fosse minimizado o risco de cometer muitos erros diretamente na tela. Por maior que seja o cuidado, mesmo que seja utilizando o carvão, ao ter que corrigir os erros a tela acaba ficando marcada demais e isso afeta na pintura. Por muito tempo não tive muita preocupação com os esboços das pinturas e em muitas delas sequer fiz esboços mais elaborados (em algumas, eram ridiculamente simples), mas atualmente (dependendo da situação), em alguns trabalhos o esboço passa a ser uma parte bem importante do meu processo artístico.

Não sei se o resultado final deste trabalho consegue corresponder tão bem ao propósito audacioso de provocar uma reflexão no observador, também tenho minhas dúvidas se as pessoas de hoje têm paciência para refletir tanto sobre uma imagem, divagando sobre visão otimista ou pessimista, mas a proposta não deixa de ser lançada aos olhos de quem se dispõe a observar. E, no meu ponto de vista, o copo está simplesmente pela metade, como está na realidade… nem cheio, nem vazio!

Imagens: Google


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Referências bibliográficas:

NOVA HOLANDA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2021. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Nova_Holanda&oldid=62571594>. Acesso em: 15 dez. 2021.


PIETER CLAESZ. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Pieter_Claesz&oldid=56147954>. Acesso em: 15 dez. 2021.


PINTURA DO SÉCULO DE OURO DOS PAÍSES BAIXOS. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Pintura_do_S%C3%A9culo_de_Ouro_dos_Pa%C3%ADses_Baixos&oldid=52405422>. Acesso em: 15 dez. 2021.


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